Hélio Duque

continua após a publicidade

?Argumente sempre jogando o Brasil contra a Argentina.? Era a recomendação do governo norte-americano ao secretário de Estado Cyrus Vance, que visitava o Brasil para negociar acordos de reciprocidade comercial. Cyrus Vance esqueceu na mesa o protocolo de instruções do Departamento de Estado, após reunião no Itamaraty. Um diplomata brasileiro o encontrou e, perplexo, leu a inusitada instrução que deveria merecer ênfase nas reuniões de que participasse com autoridades nacionais. O fato ocorreu no dia 23 de novembro de 1977, época em que o governo brasileiro tinha o general Ernesto Geisel à sua frente.

Brasil e Argentina, por mais de século, mantiveram relações duais, onde afloravam posições conflitantes e momentos de efetiva aproximação integradora. São as duas principais nações sul-americanas. Com etapas diferentes no seu processo de desenvolvimento. O Brasil, até a década de 30 do século XX, uma economia atrasada fundamentada na monocultura de exportação. A Argentina, nessa época uma das mais importantes economias mundiais, ao lado de um nível cultural e educacional com padrões europeus, edifica uma realidade modernizante na América Latina.

No pós-guerra, sobremaneira da década de 50 em diante, mudanças substanciais aconteceram. O ritmo de desenvolvimento argentino, em nível econômico e social, perdeu o ímpeto inovador. Ocorreu o oposto pelo lado brasileiro, onde se estruturou uma realidade com elevado índice de crescimento econômico, também gerador de um padrão de injustiça social inegável.

Se as relações históricas sempre foram difíceis, o preconceito, a arrogância e os desencontros serviram como matéria-prima para aflorar um clima de beligerância verbal. É nesse contexto que deve ser inserida a recomendação do governo dos EUA, na década de 70, ao diplomata Cyrus Vance. Demonstrando que essa não era uma estratégia isolada, na mesma época, Henry Kissinger considerava: ?A América do Sul é culturalmente irrelevante e economicamente insignificante?. A frase está no livro Operacion Condor, de autoria do norte-americano John Diuges, na página 219.

continua após a publicidade

Nas primeiras décadas do século XX, Theodore Roosevelt, que depois seria presidente dos EUA, já dizia que ?a América do Sul é um bom presunto e Tio Sam é bom de garfo?. Observando os relevos geográficos da região vê-se que tem realmente grande semelhança com o presunto.

A América do Norte, exceto o México, é anglo-saxônica. A América do Sul é uma realidade latina. Os padrões colonizatórios foram diferenciados. A doutrina Monroe, ao fixar o lema de ?A América para os americanos?, não acrescentou ?do Norte?.

continua após a publicidade

Por tudo isso e muito mais, o surgimento do Mercosul foi e é uma esperança para os países do sul do Equador. Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, os seus sócios fundadores, não podem se entredevorar numa discussão estéril que desserve aos seus interesses nacionais. Ao invés, devem alargar as suas fronteiras com a plena integração da totalidade das nações que compõem a América do Sul. É preciso sepultar os velhos fantasmas que tanto serviram para o enfraquecimento e domínio neocolonial da região.

Temos identidades próprias inteiramente diferenciadas da outra América. Quando o governo brasileiro participa do lançamento da Comunidade Sul-Americana de Nações, como o ocorrido em Cuzco, está trilhando um caminho correto na sua diplomacia com objetivos estratégicos de muita firmeza.

O professor da UnB Moniz Bandeira, em recente artigo na Folha de S. Paulo, traduziu de maneira admirável essa realidade. É dele a transcrição: ?Com 360 milhões de habitantes, o equivalente a cerca de 67% de toda a América Latina e a 6% da população mundial, a América do Sul detêm uma das maiores reservas de água doce e biodiversidade do planeta, de imensas riquezas minerais, pesca e agricultura. E não só sua população é maior que a dos EUA (293 milhões de habitantes); seu território (17 milhões de km2) é o dobro do americano (9,6 milhões de km2). A integração da Comunidade Sul-Americana de Nações, segundo a paridade do poder de compra, ao montante de 2.705,66 trilhões de dólares, maior do que o PIB da Alemanha (2.271 trilhões de dólares)?.

Hoje o mundo se desenvolve integrado em blocos comuns. Canadá, Estados Unidos e México constituem um só bloco econômico. Na Europa, é a sua Comunidade Econômica. Na Ásia, os seus ?tigres? igualmente. Sem esquecer o grande ?elefante? que é a China e a própria Índia, que tem um ?gap? próprio. Na América do Sul, a resposta oferecida pelo Mercosul como etapa inicial dessa necessária integração regional é altamente positiva. Enfraquecê-la, por questões menores, é fazer o jogo daqueles que desejam para a América do Sul uma relação de subordinação.

Ainda recentemente, somente os ingênuos não fizeram a leitura correta. A sra. Condoleezza Rice, secretária de Estado, na sua vilegiatura pela América do Sul, excluiu a Argentina. Passou por Brasília, onde distribuiu simpatia de ?public relations? e seguiu para o Chile, depois a Colômbia. Estratégia que, passadas três décadas, está de acordo com a recomendação dada a Cyrus Vance: é preciso conflitar as relações do Brasil com a Argentina.

São animosidades plantadas e que geram uma situação indesejável para essas duas grandes nações sul-americanas. O fato objetivo é único: Brasil e Argentina não podem partilhar outro rumo que não seja o de fortalecimento do Mercosul. Não podemos repetir a insensatez dos locutores e comentaristas esportivos que transformam, muitas vezes, os confrontos futebolísticos em autênticas arenas de guerra. Felizmente não é uma coisa séria.

A integração sul-americana tem no Mercosul o seu ?start?. Mais do que isso, precisa ser o nosso destino comum, reafirmando a identidade da América do Sul.

Hélio Duque é ex-deputado federal.