Mentira! Mentira! Mentira! Mesmo antes de o galo cantar, ou, mais apropriadamente, de o cheque da propina aparecer, Severino Cavalcanti, tal qual o apóstolo Pedro, que negou por três vezes conhecer Jesus, repeliu veementemente, durante o périplo em Nova York, a acusação de ter exigido vantagens pecuniárias para conceder o monopólio da exploração do restaurante da Câmara ao empresário Sebastião Buani. Pedro, depois de se arrepender, salvou-se, ganhou as chaves da Igreja e se tornou o primeiro papa, sob o perdão e as bênçãos do Cristo crucificado. Severino, sem arrependimento e sem pejo, mas com a bênção de uma secretária, inventou a fantástica história de que o cheque apresentado por Buani foi empréstimo ao filho morto em 2002. Quem quiser que ria. Ou chore. Nenhum filho morto merece ter a memória conspurcada, mais ainda, de forma torpe. Severino, com vergonha, renunciou.
A mentira do líder do baixo clero, que lhe tirou o mandato, faz parte daquilo que Hannah Arendt chama de ?conspiração a plena luz?, tramóia que a filósofa alemã identifica como sendo peculiar à cena política. Antigamente havia dificuldade de saber se algo era ou não mentira. Hoje, os cidadãos são brindados com mentiras deslavadas, que os mentirosos não fazem questão de disfarçar. Entre nós, a cultura da mentira data de priscas eras, quando o País, à procura de uma identidade, passou a incorporar tanto a expressão de colonizadores e bandeirantes quanto o verbo de aventureiros e degradados, na esteira dos três mitos da terra brasiliensis: a visão encantada do ?paraíso terrestre?, a barbárie do ?inferno verde? e a promessa de riquezas do ?Eldorado?.
Depois de exibir ao mundo suas múltiplas feições, o Brasil chega ao terceiro milênio com o passo um tanto quanto claudicante. Abriga ciclos democráticos entremeados de ciclos autoritários, perfis políticos banhados nas águas da fisiologia, tensões permanentes entre poderes, ou, na síntese do Macunaíma de Mário de Andrade, ?pouca saúde e muita saúva?, significando, nestes tempos severinos, muito cupim comendo nosso capim. Para piorar, o País anda ultimamente em veredas sinuosas. Poucos vão direto às questões centrais. Indiciados não sabem de nada, até aparecer prova de que sabem de tudo. Na geometria da crise, a menor distância entre dois pontos é uma curva e não uma reta. Bocas tortas, linguagens retorcidas e abordagens dissonantes desfilam pelas telas das CPIs. Ali, poucos aceitam o 9.º mandamento bíblico: ?Não cometerás falso testemunho?.
Veja-se, por exemplo, o mensalinho embolsado pelo líder do baixo clero, o mais desengonçado ator dos últimos episódios do teatro político. Uma história contada em detalhes, plena de circunstâncias, tempos e espaços, mais seis testemunhas com versões idênticas foram por ele descartadas. Até que apareceu um cheque com o endosso de uma secretária. Foi o xeque-mate. Nem o filho no cemitério o salvou. Além da pantomima, o que se vê, ao fundo, é um remanescente Brasil cartorial, o mesmo de 1534, quando foi repartido em 15 capitanias hereditárias. Basta analisar a reação do bunker de Severino, que descartava provas testemunhais como se não tivessem o peso de documentos. E por quê? Porque a palavra oral não vale nada. Ora, é a mesma coisa que exigir do assassino a confissão por escrito de um crime (e com firma reconhecida) porque as testemunhas do assassinato não merecem credibilidade. A lei garante a legitimidade de provas testemunhais. Mas, no Brasil, as coisas só valem com a chancela do cartório.
Aliás, o fluxo das CPIs tem esbarrado na montanha de desconfiança construída pela verborragia matreira de muitos depoentes. Das toneladas de papel recolhidas, a luz deverá aparecer. A conclusão é de que o prolongamento da crise política se deve à indisfarçável intenção de investigados de levar ao pé da letra o seu papel de atores do teatro político. Está sendo muito difícil para os investigadores desvendar os artifícios, reabilitar a palavra, desfiar o novelo das tramas e reencontrar a realidade. Até porque, como ensina Diderot em seu Paradoxo sobre o comediante, os comediantes impressionam as platéias não quando estão furiosos, mas quando representam o furor. Os histriões convencem mais que os grandes atores porque conseguem o exagero indispensável ao teatro. Os parlapatões Waldomiro Diniz, Delúbio Soares, Marcos Valério, a turma petista que assessorava as prefeituras de Ribeirão Preto, Santo André e Campinas, o grupo do mensalão e coadjuvantes formam a maior trupe de artistas performáticos de todos os tempos políticos de nossa história.
No caso do presidente da Câmara, o exagero foi além da conta. O ator foi anulado pela extravagância de seu personagem.
Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político.