Voltando baterias contra o que chamou de “anarquia especulativa”, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva manteve a tradição inaugurada por Oswaldo Aranha, chanceler do governo getulista, discursando na abertura da 63.ª Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), cujo signo evidente é a crise financeira do mercado norte-americano e a repercussão sobre os organismos multilaterais do mercado. Lula criticou a desregulamentação do mercado, mas defendeu maior autoridade às organizações econômicas supranacionais, como o Banco Mundial, na cobrança de ações menos danosas à economia. Frisou o presidente brasileiro que “a ausência de regras favorece aventureiros e oportunistas, em prejuízo das verdadeiras empresas e trabalhadores”.
Lula também aproveitou para lamentar a passagem quase despercebida de George W. Bush pelo evento, a última vez que comparece na condição de presidente dos Estados Unidos, lamentando que seu breve pronunciamento limitou-se a alusões passageiras à crise econômica, estendendo-se nos malefícios do terrorismo. No enfoque de Lula, o presidente da maior economia mundial, mesmo se encaminhando para o final do mandato, deveria ter dado mais tempo para a abordagem da crise financeira do país: “Mas ele fez a opção por voltar a falar de terrorismo e eu, obviamente, como sou defensor da liberdade dos povos e da soberania dos discursos dos presidentes, eu fui obrigado, então, a ficar quieto”, resumiu.
Mesmo falando pouco sobre a crise, o presidente Bush procurou demonstrar confiança no esforço destinado a devolver a estabilidade perdida pelo mercado norte-americano, sanando a ameaça de contaminação da economia dos demais países. Bush também está contando com a celeridade do Congresso na aprovação do plano de emergência para resgatar até US$ 700 bilhões de papéis podres, que ainda mantêm encurralados os principais operadores de Wall Street.
O candidato do Partido Republicano à presidência dos Estados Unidos, John McCain, ingressou no rol dos que pretendem tornar mais rigorosas as normas de controle da atuação de agentes econômicos, especialmente os investidores, protegidos por um autêntico “buraco regulatório que precisa ser imediatamente coberto”, na avaliação de grande número de legisladores federais. Dentre as medidas imediatas, políticos democratas querem que o governo imponha limites à remuneração de executivos, além de ter participação acionária nas empresas beneficiadas pelo eventual fundo de resgate de US$ 700 bilhões.
No frigir dos ovos, o conjunto das medidas anunciadas pelo secretário do Tesouro, Henry Paulson, caso seja aprovado pelo Congresso, vai se transformar numa intervenção direta do governo em área tão sensível quanto a menina dos olhos das empresas privadas. Talvez por esse desdobramento indesejado, o pacote oficial foi recebido com inegável frieza pelos membros do Congresso. Na audiência que se prolongou por cinco horas na última terça-feira, dia 23, o secretário Henry Paulson e o presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, foram duramente questionados pelos parlamentares. Por outro lado, a gravidade de uma crise que sabidamente não poupará ninguém, aos poucos vai convencendo os líderes democratas e republicanos a arregimentar seus blocos para votar a favor da proposta.
No Brasil, mesmo com as oscilações inquietantes da Bovespa, termômetro da nossa economia, os efeitos iniciais da crise norte-americana estão sendo absorvidos com razoável dose de tranqüilidade. Pelo menos é o que apregoa o ministro Guido Mantega, da Fazenda. O economista Luciano Coutinho, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), braço financeiro das políticas públicas de fomento, assegurou que a instituição tem suficiente folga de caixa para contornar a escassez do crédito internacional durante o primeiro semestre de 2009. Até o final de 2011, a estimativa do BNDES é investir R$ 2,4 trilhões na construção e infra-estrutura.