A eleição do morubixaba José Sarney (PMDB-AP) para a presidência do Senado da República, sobrepujando o senador petista Tião Viana (AC), na avaliação de conhecedores das reações intestinas da política brasileira está custando caro ao coronel maranhense transplantado para o Amapá, à vista dos desagradáveis contratempos que vem enfrentando nos últimos dias. Aliás, o próprio Sarney reconhece que por trás das armações estão alguns integrantes do Partido dos Trabalhadores (PT) do Maranhão, sequiosos por vingança. O primeiro arcabuz a detonar, embora a chumbada não tenha atingido o presidente recém-eleito do Senado, foi a denúncia de que o então diretor-geral da instituição, o potiguar Agaciel Maia, escondeu da Receita Federal a propriedade duma mansão avaliada em R$ 5 milhões, localizada no Lago Sul, uma das regiões de maior valorização imobiliária da capital federal. Agaciel que fora colocado no cargo pelo próprio Sarney, em seu primeiro mandato na presidência da casa, a fim de não causar complicações para seu antigo protetor, tomou a resolução de solicitar o afastamento definitivo de suas funções.
Quanto tudo parecia serenado, o clã foi novamente melindrado com a revelação de que a senadora Roseana Sarney (PMDB-MA), líder do governo no Congresso Nacional, teria utilizado a cota pessoal de passagens aéreas fornecida pela instituição para pagar a viagem de ida e volta de sete pessoas entre São Luís e Brasília, num final de semana recente. Segundo os comentários, esses passageiros privilegiados seriam empresários, amigos ou parentes da senadora. A notícia foi publicada no site Congresso em Foco, que relata o cotidiano das atividades dos deputados e senadores.
A assessoria do gabinete da filha de José Sarney confirmou que ela teria recebido em Brasília algumas pessoas de seu círculo de amizades, para conversas pontuais sobre a atual conjuntura política do Maranhão, vez que a cassação do mandato do governador Jackson Lago (PDT), mantido no cargo até o julgamento do recurso, abre a possibilidade de Roseana (segunda colocada na eleição de 2006) voltar ao governo do Estado. A situação ficou ainda mais complicada, ao se revelar que os convidados ficaram hospedados na residência oficial do presidente do Senado, vazia, porquanto o senador José Sarney preferiu ficar morando em sua residência particular.
O primeiro-secretário do Senado, senador Heráclito Fortes (DEM-PI), afirmou não ver a menor ilegalidade no fato, ademais de mostrar-se irritado com a insistência das denúncias sobre irregularidades cometidas por funcionários do Senado. Ele chegou a verberar que “daqui a pouco está na hora de fechar o Congresso”, esclarecendo que o uso dos bilhetes aéreos constantes da cota atribuída aos parlamentares é da exclusiva responsabilidade de cada um. O agastado presidente da casa, por seu turno, preferiu enxergar na trama as impressões digitais de malévolos petistas maranhenses, desejosos de desmerecer a derrota infligida ao senador Tião Viana.
A imagem seriamente comprometida da instituição pelo pagamento de horas extras a servidores dos gabinetes dos senadores quando os titulares estavam em pleno recesso de janeiro (mais de R$ 6 milhões), sofreu novo revés no último fim de semana ao se saber que determinadas empresas prestadoras de serviços à Secretaria Especial de Informática do Senado (Prodasen), num ato de extrema solidariedade de classe tomaram a decisão de contratar parentes de diretores importantes da casa, demitidos em face da caracterização de nepotismo. Trata-se do chamado “nepotismo cruzado”, uma supimpa criação do patrimonialismo político brasileiro com o objetivo escancarado de burlar a legislação, que exige urgente esclarecimento.
A mesa diretora do Senado baixou portaria assinada pelo primeiro-secretário Heráclito Fortes, determinando que servidores somente farão trabalho extra após o encerramento do expediente, às 18h30, sob rigoroso controle. Sobre a devolução do dinheiro embolsado de forma duvidosa ninguém sabe, ninguém viu.