Diz o adágio que não se deve chorar o leite derramado. Este parece ter sido o expediente adotado pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB), para explicar o desempenho de nossa delegação de atletas (a maior de todos os tempos) nas Olimpíadas de Pequim. O presidente da entidade, Carlos Arthur Nuzman, cujo nome está associado diretamente à extraordinária ascendência do voleibol como esporte de massa no Brasil e, por esse motivo, tornou-se merecedor do respeito, que, fazemos voto, não venha a perder por interferências estranhas à sua conduta de dirigente esportivo, proferiu uma verdade insofismável: “Para se ter uma evolução qualitativa é preciso mais recursos”.
Nuzman revelou que o montante dos gastos do COB na preparação dos atletas olímpicos brasileiros foi de R$ 160 milhões, R$ 70 milhões a mais que a quantia gasta para os jogos de Atenas, em 2004. O Brasil esteve presente em 38 finais e 29 disputas diretas pela medalha de ouro, fato que demonstra um grande avanço em relação a participações anteriores. Ganhou ao todo 15 medalhas, das quais três de ouro, quatro de prata e oito de bronze, sendo dignos dos maiores elogios os três recordes olímpicos e a primeira medalha de ouro na natação, o primeiro pódio feminino na vela e no judô, além da primeira medalha de ouro individual conquistada por uma mulher, Maurren Maggi, na competição do salto em distância.
Projetando o olhar para os próximos jogos olímpicos (Londres, 2012) e, ainda mais à frente, o raciocínio de Artur Nuzman nos permite avaliar a enorme distância que nos separa dos planejamentos fundados na lógica e no pragmatismo em termos da valorização do esporte amador, seara onde florescem os atletas com potencial olímpico. Infelizmente não é este o comportamento verificado no cotidiano dos nossos dirigentes esportivos, salvo as exceções de praxe, sobretudo em se tratando dos dirigentes localizados na esfera pública.
A premissa básica para o avanço do desempenho de atletas brasileiros em competições mundiais, é uma transformação radical no campo do esporte de rendimento, com vistas à seleção, educação e treinamentos concebidos de conformidade com os sofisticados padrões técnicos e científicos já desenvolvidos por muitos países, além da preparação psicológica só agora considerada indispensável pelo presidente do COB. Somente com esse enfoque revolucionário, repetimos, será possível concordar em gênero e número com o sonho que ele alimenta: “O Brasil caminha para ser uma potência olímpica”.
Talvez, assim, fosse um pouco menos pobre a apreciação feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o desempenho “razoável” dos atletas brasileiros na China. Lula declarou ontem no programa semanal de rádio Café com o presidente, que o Brasil perdeu em quase tudo, mas “ganhou em modalidades que não tinha o hábito de ganhar”, numa referência explícita à medalha de ouro conquistada pela saltadora Maurren Maggi. O único aspecto a lamentar é que o presidente tenha cometido, mais uma vez, uma impropriedade verbal ao reduzir a simples “hábito de ganhar” o esforço diuturno, a dedicação integral e a renúncia pessoal de homens e mulheres que assombraram o mundo com suas performances de velocidade, força e domínio próprios.
No entanto, o presidente fez oportuno chamamento ao asseverar que “o esporte brasileiro precisa ser levado mais a sério”, prognosticando melhores resultados em futuras competições caso haja “maior maturidade profissional no tratamento dos atletas”. A tarefa foi repassada pela enésima vez aos gestores públicos das três esferas e também à iniciativa privada. Um reflexo da falta de apoio do governo federal ao esporte é que apenas 10% dos atletas que foram a Pequim fazem parte do Bolsa Atleta, um programa de incentivo financiado pelo Ministério dos Esportes. Como se percebe, a transformação acalentada deve começar em casa.