Massacres & armas

A tragédia ocorrida na Virgínia, onde um estudante psicótico assassinou 32 pessoas, entre alunos e professores, chocou o mundo. Da mesma forma que o mundo também começa a prestar atenção nos massacres verde-amarelos. O diário americano The Washington Post publicou em sua edição desta segunda-feira uma grande reportagem sobre a violência no Rio de Janeiro, na qual afirma que o número de mortes de jovens nas favelas da cidade ?ultrapassa de longe o de muitas zonas de guerra?. Assim, enquanto Cho Seung-Hui abria fogo contra alunos e professores, traficantes no Rio de Janeiro abriam fogo contra rivais, policiais e quem estivesse em sua linha de tiro, com o saldo de pelo menos 25 mortos.

Depois de grandes tragédias, soluções simplistas aparecem rapidamente, da mesma forma que culpados são apontados na mesma velocidade que os assassinos cometem suas atrocidades. Diferenças gritantes à parte entre os dois fatos, uma ?culpada? em comum foi escolhida: a arma.

Para alguns, tanto lá como aqui, a simples existência da arma de fogo é a responsável pelos atentados e barbáries, mas há muita coisa mal-explicada pelos que compactuam dessa mesma visão. Na maioria dos estados dos EUA, qualquer cidadão sem antecedentes criminais pode comprar legalmente uma arma de fogo; já no Brasil, isso é praticamente impossível, além do que armas como fuzis e metralhadoras jamais foram vendidas legalmente e, mesmo assim, nos últimos confrontos no Rio de Janeiro todos os traficantes estavam armados exatamente com fuzis, metralhadoras e granadas.

Só com esse fato já seria razoável perceber que a proibição ou restrições na venda de armas legais não impedem que criminosos, sejam traficantes, sejam psicopatas, adquiram os meios necessários para seus objetivos. Mais uma prova disso, no Brasil, foi o caso do estudante de medicina Mateus da Costa Meira, que comprou ilegalmente uma metralhadora e abriu fogo dentro de um cinema na capital paulista, onde a carnificina só não foi maior porque um herói desconhecido saltou sobre ele enquanto ele recarregava sua arma.

Países como a pacata Suíça possuem facilidade de aquisição e grande quantidade de armas nas mãos de seus cidadãos, porém nem ataques em escolas ou guerra entre traficantes ocorrem. Então, de quem é a culpa?

Quando Rousseau escreveu que o homem é originalmente bom e que é a sociedade que o corrompe, estava escrevendo uma das maiores bobagens da história. Qualquer ser humano é capaz de atos violentos desde sua infância. Ver crianças pequenas brincando em grupos nos dá a exata consciência disso. Brigam por brinquedos, agridem, provocam e o maior ou mais agressivo fica com o melhor brinquedo. Isso perdura até que algum adulto interfira e mostre o que é certo ou o que é errado.

Esse é o papel do Estado na sociedade moderna, sua ausência física ou moral cria verdadeiros monstros. Países como a Suíça provam que a verdade de Rousseau é exatamente o inverso do que ele pregava. A sociedade e o Estado são os únicos que podem tornar o ser humano menos suscetível aos seus instintos básicos. Dessa forma, a existência de armas de fogo na sociedade, mesmo em grande quantidade, pouco ou nada interfere no grau de violência.

Bene Barbosa é bacharel em Direito, especialista em segurança e presidente da ONG Movimento Viva Brasil.

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