Massacre econ

A economia mundial entrou em estado de alerta em face dos efeitos devastadores do abalroamento causado pelo pedido de concordata do Lehman Brothers, das negociações para a venda do Merril Lynch e do apelo dramático da seguradora AIG para conseguir um empréstimo de emergência. Os analistas do mercado, de imediato, passaram a vislumbrar no mundo econômico a mesma sensação de pavor e insegurança disseminada por todos os países após os atentados de 11 de setembro de 2001. A Bolsa de Nova York teve sua queda mais fragorosa desde que os terroristas islâmicos mudaram as rotas dos aviões que haviam seqüestrado, transformando num monturo de escombros e milhares de corpos incinerados as Torres Gêmeas.

O despencar das bolsas de valores seguiu rigorosamente a teoria do dominó e a queda se generalizou ao redor do planeta. Em termos percentuais, a perda de 7,59% registrada pela Bolsa de Valores do Estado de São Paulo (Bovespa) no pregão de segunda-feira, foi a maior desde o referido atentado. O ministro Guido Mantega, da Fazenda, afirmou que se a realidade da nossa economia fosse outra “o Brasil já estaria de quatro”, numa jocosa analogia que decerto achou adequada para definir a conjuntura aziaga vivida por outros países.

Seria de bom alvitre, além de fornecer apreciável carga de esclarecimentos aos leigos em assuntos econômico-financeiros se o próprio ministro (ou alguém tão competente quanto ele) explicasse as razões que levaram exatamente a Bovespa, que não está necessariamente no epicentro da crise, a ser penalizada com o maior percentual de prejuízos dentre as principais bolsas da economia globalizada.

De acordo com a ampla cobertura que as editorias de economia dos grandes jornais deram ao triplo desastre norte-americano, o índice Ibovespa chegou ao final de segunda-feira a seu menor nível desde agosto do ano passado. Dentre as bolsas das mais expressivas economias planetárias nenhuma teve maior queda que a brasileira. A constatação, de fato, levou todo mundo a prestar atenção aos argumentos do ministro da Fazenda e a pensar no que poderia estar acontecendo hoje, caso os indicadores econômicos do País não tivessem a resistência atual.

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, também fez sua parte no grande esforço para tranqüilizar a população e, sobretudo, os investidores, ao transmitir a certeza da existência de “um colchão confortável de liquidez” por causa da não-vinculação de bancos brasileiros ao que chamou de “sistema de créditos ruins” dos bancos norte-americanos, ponto de origem da quebradeira. Meirelles se apropriou de outro tema corriqueiro nos jornais dos últimos dias, para lembrar que o Brasil foi atingido apenas pelo vento, ao passo que o verdadeiro tsunami ocorreu fora daqui. Entrementes, enquanto as autoridades econômicas brasileiras procuravam dar boas notícias, Henry Paulson, secretário do Tesouro norte-americano, advertia que a crise será longa, deverá se intensificar e, como desgraça pouca é bobagem, não haverá dinheiro do Tesouro para socorrer os bancos a caminho da falência.

O Lehman Brothers contava com a obtenção de um empréstimo público para se recuperar da crise, mas o reforço externo não apareceu. Paralelamente, o Merril Lynch foi obrigado a aceitar a oferta de US$ 50 bilhões em troca do controle acionário repassado ao poderoso Bank of America. A situação mais emblemática da débâcle da economia dos Estados Unidos, porém, ficou por conta da AIG, maior seguradora do mundo, que vive momentos de intensa agonia sem capacidade para levantar, no próprio mercado, o volume necessário de recursos para evitar o desfecho humilhante do encerramento das atividades.

São estes os componentes essenciais do furacão que varreu impiedosamente a maior economia do mundo. Não é sem motivos que os observadores prontamente associaram o massacre com o 11 de setembro.

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