A analogia cruel, em quase tudo verdadeira, veiculada pelos porta-vozes de círculos ditos bem pensantes, garante que tanto o comportamento quanto a ação dos dirigentes do Partido dos Trabalhadores, em especial dos defenestrados pela montanha de escândalos à sua volta, acabou assumindo tintas de autêntico ranço stalinista.
Depois de um quarto de século de caminhada e de conduzir seu principal expoente à presidência da República, posto que beneficiário (e refém) de um conglomerado de partidos de centro-direita, o PT se oferece numa bandeja – como a cabeça de João Batista – aos críticos dos costumes políticos de nossa terra, como protagonista de um papel indigno de sua história e vocação fundadora.
Acabrunhados pela amarga realidade, petistas de primeira hora batem em retirada para não participar do pior, e os que resistem se aferram à disciplina de que a volta por cima é uma probabilidade jamais esgotada. Todos, porém, contemplam um partido esmigalhado pelo centralismo doentio do grupo controlador do Campo Majoritário, tendência ideológica predominante num grêmio que se aprestava a servir como veículo natural da expressão do proletariado.
O saldo inevitável da hegemonia exercida sobre a economia interna do PT pelo Campo Majoritário, seja qual for o mistério insondável que se esconda sob esse dístico pomposo, é arcar com a vergonhosa pecha de bisonho repetidor da tática mandonista utilizada pelo camarada Stalin para manipular a máquina partidária soviética.
Essa história foi contada por Isaac Deutscher, grande biógrafo de Leon Trotski, que minha geração leu nos anos 80s graças à lucidez de Ênio Silveira, motor da Editora Civilização Brasileira. Na trilogia escrita sobre o herói da revolução bolchevique, ao narrar exaustivamente o meticuloso plano usado por Stalin para afastar obstáculos de seu caminho para o domínio absoluto, Deutscher fez a seguinte observação: ?A grande maioria do partido assemelhava-se a uma massa gelatinosa: consistia de membros humildes e obedientes, sem inteligência e vontade próprias?.
Não tenho a intenção de comparar períodos históricos e pessoas inteiramente diferentes entre si, mas não resisto à tentação de estabelecer alguns vínculos aqui e ali, pela extrema similitude entre uma coisa e outra. Por isso, ofereço ao leitor ocasional deste espaço a possibilidade de tirar conclusões próprias. Uma boa pista é refletir sobre as declarações do insigne pensador marxista francês – Boris Souvarine – autor de um clássico ensaio sobre o stalinismo, talvez o mais notável que se conhece até hoje.
?Que Stalin foi capaz de vencer seus adversários da esquerda e da direita facilmente, a ponto de exterminá-los todos, inclusive líderes muito mais destacados do que ele na história do partido; que ele foi capaz de mudar de opinião de forma surpreendente, massacrando milhões de camponeses de todas as condições, depois de ter sido o defensor de seu bem-estar – eis alguns aspectos do stalinismo que nenhuma teoria pode explicar?.
Uma das táticas mais apreciadas pela cúpula petista hoje em desgraça, a expressão foi muito usada na Moscou dos anos 20s, foi jamais abrir mão do comando implacável, a julgar pelo desfecho do episódio determinante da expulsão da senadora Heloísa Helena e dos deputados que votaram contra a reforma da Previdência, movidos pela fidelidade à luta do partido. A prática stalinista apropriada pelos dirigentes petistas, a mesma que justificou sem maior embaraço a concertação de base partidária cuja profunda disparidade de pensamento e ação, em algum momento, como ficou provado, causaria formidável abalo na governança, numa quadra de estupor generalizado por parte do povo, não tem pejo de agarrar-se ao pueril argumento de que tudo não passa de conluio da direita, por temer a reeleição de Lula.
A coincidência facilitada pelo afã de escalar novos ministros e a compulsória que resultou na exclusão de dirigentes de alto bordo do diretório nacional do PT deu a Lula a oportunidade de valer-se de três auxiliares – Tarso Genro, Ricardo Berzoini e Humberto Costa – para empreender uma espécie de estatização do diretório do Partido dos Trabalhadores.
Afinal, é o partido que está no governo ou foi o governo que empalmou as rédeas do partido? Uma charada que o presidente interrompeu para ir a Paris, onde no 14 de Julho, o maior feriado dos franceses, degustou ao lado de Jacques Chirac e convidados uma suculenta picanha brasileira. Enquanto o pau come solto, há tempo para desfrutar por algumas horas o doce verão da Cidade Luz, onde certo dia Hemingway pilhou-se pobre como um rato de igreja, mas intensamente feliz. Em verdade vos digo.
Ivan Schmidt é jornalista.