Marola industrial

A crise está demorando a chegar em determinados setores da economia brasileira – o que é, por sinal, muito bom. Mas outros estão recebendo duros golpes, que começam a ser captados pelos institutos de pesquisa. No fim da semana passada, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou dados assustadores: a produção industrial de janeiro teve uma queda de 17,2% em relação ao mesmo mês de 2008. É a maior retração da série histórica do IBGE, iniciada em 1991.

O repórter Hélio Miguel, em matéria publicada na edição de sábado de O Estado, aponta o principal problema: “Todas as categorias de uso tiveram a produção reduzida. Os bens de consumo duráveis tiveram o maior recuo (-30,9%), principalmente devido ao desempenho registrado nos automóveis, celulares e eletrodomésticos. ‘É uma categoria que tem muito vínculo com a questão do crédito’, aponta o economista da Coordenadoria de Indústria do IBGE, André Macedo”.

Se não há muita surpresa com a redução na produção de automóveis (a venda expressiva de janeiro foi de carros em estoque nas fábricas e concessionárias), é interessante a retração na produção de eletrodomésticos e aparelhos de telefone celular. Se o primeiro setor pode ter a mesma explicação do setor automotivo – a venda dos produtos em estoque -, para os celulares não há explicação aparente. A demanda foi crescente em 2008, não havia tantos produtos guardados para este ano.

Mas acontece que o dinheiro começou a rarear no bolso dos brasileiros. Houve uma queda no valor médio dos salários, e o corte de empregos em vários setores, em todos os estados. Aí o supérfluo sobra. E, por mais que seja utilíssimo, principalmente para as classes mais baixas, o celular não é mais trocado incessantemente como outrora. Os consumidores decidem ficar com os aparelhos por mais tempo, usando o dinheiro apenas para pagar os créditos ou as contas.

A “marola” do presidente Luiz Inácio Lula da Silva está começando a ficar maior. E caberá ao governo federal construir os diques capazes de segurar essa onda e fazer dela, realmente, uma marola.

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