Dejalma Cremonese

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O renascentista Nicolau Maquiavel (1469-1527) ganhou notoriedade na história e nas ciências sociais por ter escrito a obra O Príncipe (O Principal) (1513-1514). Considerado um dos primeiros cientistas políticos da modernidade, tratou a política de maneira diferenciada dos teóricos anteriores. Enquanto que Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Dante, ou mesmo os seus contemporâneos Erasmo de Rotterdam e Thomas More imaginavam e idealizavam a política e conjeturavam sobre como ela deveria ser (ou como gostariam que fosse), Maquiavel, seguidor de Tácito, Políbio, Tucídides e Tito Lívio, examinou a política com objetividade, tal qual ela é. A essência de sua obra pode, então, ser resumida na questão do poder: como conquistar, aumentar e, principalmente, recomendou estratégias para manter o poder político, pois, ?conquistar o poder é fácil, difícil é mantê-lo?.

A história política pode ser dividida em duas partes, antes e depois de Maquiavel. Até então, a política estava ligada aos valores religiosos, teocentrismo (Deus era o centro) e a política propriamente dita seguia em segunda ordem e, por último, o indivíduo. Depois de Maquiavel, a ordem se inverte, a política torna-se o valor mais importante, juntamente com a valorização do indivíduo. Maquiavel não tratou de questões e valores espirituais. Talvez por esta razão o seu O Príncipe tenha sido indexado, em 1559, pela Igreja Católica, na lista de obras proibidas (Índex). É do sentido pejorativo dado pela igreja à obra de Maquiavel que surgiu o adjetivo maquiavélico, conhecido até nossos dias como aquele que tem um procedimento astucioso, velhaco, traiçoeiro. Em inglês, a expressão ?Old Nick? significa, literalmente, uma abreviação de ?Velho Nicolau?, termo com o qual, na Inglaterra, desde a época elizabetana, a literatura passou a designar Maquiavel: como o próprio ?Velho Diabo?.

O objetivo de Maquiavel era a unificação da Itália. Para isso, precisava de uma liderança política (príncipe) destemida, engenhosa, habilidosa e forte (virtu) mesmo que, para alcançar este fim, fosse necessário empregar certos meios pouco lícitos (pois os fins justificam os meios). O príncipe (liderança política) situa-se para além do bem e do mal. Em nome do poder, tudo se justifica: cupidez, rapacidade (avidez de lucro), fraude, dolo, roubo, libertinagem, deboche, velhacaria, perfídia, traição, dissimulação. Tudo é permitido desde que se alcance o resultado desejado; por isso, todos os meios são considerados honestos.

Nesse sentido, acredita-se que os ?ensinamentos? de Maquiavel e seu O Príncipe foram assimilados e postos em prática por uma boa parte das nossas lideranças políticas atuais. Muitos o têm como ?livro de cabeceira?, um manual de sobrevivência na política. Infelizmente trocou-se a ética pelo ardil, a astúcia e o cinismo. O mau exemplo do Senado brasileiro absolvendo o presidente da Casa, Renan Calheiros, acusado de diversas irregularidades (tráfico de influência, enriquecimento ilícito, favorecimento a empresas), e o esforço empreendido pelo partido do governo para salvá-lo, leva-nos a crer, infelizmente, que as práticas do ?Velho Diabo? têm encontrado guarida no coração e mente de muitos… Sim, ele anda solto pelas bandas do ?planalto? e até nas mais recônditas ?planícies?. Estamos bem arrumados…

Dejalma Cremonese é cientista político. dcremo@hotmail.com.br

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