Partidos da base governista e da oposição cumprem o doloroso dever de informar a quem interessar possa, sobretudo a seu fiéis eleitores que, em virtude da inamovível demonstração de apego às suas responsabilidades éticas e morais, torna-se absolutamente inviável concordar com a implantação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), com a finalidade de apurar a procedência dos recursos doados pela empreiteira Camargo Corrêa, a mais da metade dos ilustres membros do Congresso Nacional.
Trata-se da recíproca à capacidade de desprendimento patriótico da referida empreiteira de obras públicas, que entre outras frentes de ação garantem polpudo naco de seu faturamento anual. Para comprovar que a benevolência não é mera figura de linguagem utilizada pela propaganda, basta recorrer aos assentamentos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), na prestação de contas de deputados federais e senadores da República. Lembremos, porém, que o TSE se ocupa apenas das doações ditas legais, muito embora o poderoso jato do ventilador da Operação Castelo de Areia, desencadeada pelo Ministério Público e Polícia Federal tenha levantado uma sarabanda de indícios veementes da ocorrência, em não poucos casos, de doações “por baixo do pano”.
Diante da apressada e inoportuna sugestão de pedir a instalação de CPI para investigar a prodigalidade da Camargo Corrêa, que em nota pública admitiu ter repassado diretamente aos partidos e candidatos a prefeito municipal, em 2008, a quantia de R$ 23,9 milhões, algumas vozes menos afeitas à estridência entoaram, à socapa, a cantilena do deixa pra lá. Um dos líderes da composição governista disse aos repórteres que investigar a Camargo Corrêa teria o mesmo efeito da retirada abrupta da tampa duma panela de pressão. E um representante da oposição, vestindo igualmente a carapuça, aludiu à imagem bastante conhecida do “efeito dominó”, caso a investigação das doações da citada empresa se espraiasse também para outras fontes.
O pior dos cenários imagináveis seria a inevitável propensão da CPI escarafunchar sobre o terreno pegajoso da suposta prática da evasão de divisas, tendo em vista as insinuações apreendidas nas escutas telefônicas dos quatro diretores da Camargo Corrêa, permitidas pelo Poder Judiciário, os mesmos que receberam ordem de prisão de agentes da Polícia Federal.
Na campanha de 2006, a Camargo Corrêa doara aos partidos e candidatos a apreciável soma de R$ 23 milhões, dos quais R$ 6,3 milhões direcionados preferencialmente ao PT, PSDB e DEM. Para o comitê encarregado da campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a doação legal chegou a R$ 3,5 milhões, ao passo que o candidato tucano Geraldo Alckmin teve de se contentar com apenas R$ 785 mil.
A força-tarefa organizada de forma espontânea para desestimular o açodamento de uns quantos parlamentares mais afoitos em relação ao pedido de CPI, não deixa de ter lastro no fato de que a empreiteira, a segunda em receita líquida no País, mantém um relacionamento amigável com o Partido dos Trabalhadores (PT) e com a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), provável candidata da aliança à sucessão de Lula, em 2010. Como parceira do governo no âmbito do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a Camargo Corrêa é responsável pela execução de obras em várias regiões.
Colocar uma empresa desse porte, cuja mão aberta jamais se encolheu nas ocasiões em que a boa e velha visão estratégia recomendava o reforço de caixa dos partidos e candidatos, sob a luz incômoda de potentes refletores é, a essa altura do campeonato, uma jogada que mesmo resultando numa exibição de gala para a plateia ansiosa por ações memoráveis, não interessa a nenhum dos jogadores. O melhor é fazer de conta que nada se viu ou ouviu e, como de praxe nas confrarias postadas nos pontos mais altos da pirâmide sociopolítica, varrer o cisco para debaixo do espesso tapete do pacto das elites.