Já não existem partidos de massas, nos moldes inventados pelos socialistas no fim do século 19. Os grandes partidos socialistas europeus se integram cada vez mais à ordem vigente, renunciando à socialização dos meios de produção. Apesar de contestar o valor moral do capitalismo, aplaudem sua eficiência. Por isso, preferem pisar na realidade que flanar nas utopias.
A transformação de partidos de massas em partidos de quadros, fragilmente organizados, fenômeno que se observa em todos os quadrantes, nos obriga a refletir sobre nosso futuro. Se nem o minúsculo PCdoB tem pacote ideológico para exibir (e, se tem, fica escondido), imaginem as siglas fortes. Sua identidade está esgarçada e seus corpos amorfos servem de massa de manobra. (Por isso Lula se apressa a fechar adesões no varejo; já conta com cerca de 330 parlamentares.) Com perspicácia, Maurice Duverger, o pensador francês, fez, há tempos, o prognóstico: ?O Brasil só será uma grande potência no dia em que for uma grande democracia. E só será uma grande democracia no dia em que tiver partidos e um sistema forte e estruturado?. Nossa vida partidária, vale lembrar, começou em 1837, na monarquia, com os partidos Conservador e Liberal, que comandaram a vida institucional até o final do império. O germe de ambos se fez presente em todas as fases da vida política nacional, desembocando, depois de 1945, na liberal UDN, no conservador PSD e no varguista PTB, três velhas matrizes do atual leque partidário.
A pulverização partidária recente começa com a Arena e o MDB, criados pela ditadura militar e extintos em 1979. Deles se origina o ciclo da cissiparidade, a divisão de um partido em dois ou mais, como foi o caso do PFL, criado a partir do PDS do início da década de 80, que deu respaldo à segunda fase do ciclo militar; do PSDB, tirado de uma costela do PMDB; do PDT, extraído de uma banda do antigo PTB getulista; do PPS, cuja origem é o PC, o partidão, que abrigou o maior número de comunistas. Breve, estaremos abrindo o ciclo imposto pela cláusula de barreira. E a questão voltará à ordem do dia: como se comportará a nova organização partidária? A reforma política – fidelidade partidária, voto distrital, financiamento público de campanha – pouco adiantará se os partidos não tiverem doutrina.
Sinais de mudanças estão sendo dados pelo PSDB e pelo PT. Os tucanos sabem que seu partido não expressa os anseios das massas. Com dificuldade, o tucanato senta praça em plagas afastadas dos grandes centros. O ideário social-democrata, que inspirou os criadores, estiolou-se quase por completo, saindo o partido da margem esquerda para ocupar o centro do arco ideológico, aproximando-se da direita, onde pontua o ex-aliado PFL, ícone do liberalismo. O PSDB, com suas vaidades e falta de ações afirmativas, deixou o PT abrigar-se sob o colchão social, onde dorme praticamente sozinho, mas o conforto foi proporcionado pela política ?neoliberal? tucana. Ante a perspectiva do enfrentamento em 2010, os dois buscarão uma configuração capaz de resgatar o verniz ideológico corroído. Para tanto será necessária uma reengenharia de organização que leve em consideração a descentralização e a conseqüente ocupação de espaços regionais, além da abertura das cúpulas dirigentes e de programas de alto impacto.
Do PMDB nada se pode esperar. Terá sempre prato cheio no banquete governamental. Continuará na estratégia de buscar votos com o poder dos cargos. O PDT, se não dobrar a vértebra, conservando-a sempre ereta, terá condições de ganhar milhões de adeptos insatisfeitos com a tibieza de tucanos e desconfiados das maracutaias petistas. Trata-se de sigla com potencial de crescimento. O PSB precisa esclarecer qual é sua proposta socialista. O PFL precisa corrigir a rota. Urge limpar a pecha de partido direitista com um discurso para as classes médias e disputar voto com tucanos e petistas. O PPS, futura Mobilização Democrática, continuará no limbo, caso Roberto Freire não lhe dê escopo. Não há perspectivas para inserir o PP, o PTB e o PL na seara doutrinária. Serão siglas funcionais de negociação. E o que esperar do PSOL, de Heloísa Helena, e do PCdoB, do comunista que Lula quer entronizar, mais uma vez, na presidência da Câmara? Uma dose de utopia seria interessante. Pois, como ensina Jean-François Revel, ?a utopia não tem obrigação de apresentar resultados. Sua única função é permitir aos seus adeptos a condenação do que existe em nome daquilo que não existe?.
Gaudêncio Torquato, jornalista, é consultor e professor titular da USP.