Gaudêncio Torquato
Na campanha presidencial de 1919, Rui Barbosa, do alto da capacidade de ilustrar com imagens a cena brasileira, descrevia a ?crise de febricitação? vivida pelo País, para indagar se a vitória seria dos micróbios ou dos fagócitos, células que engolem os germes homicidas. A democracia social do grande tribuno – construção de casas para operários, limitação do trabalho de menores, jornada de 8 horas, proteção do trabalho das mulheres, licença maternidade, acidentes de trabalho e seguro obrigatório, entre outros temas – ganhou nos grandes centros urbanos, mas os votos do interior, mais numerosos, derrotaram o velho baiano, de 70 anos, que amargou, no mesmo ano, outra derrota, a do seu candidato oposicionista, Paulo Fontes, na Bahia. O Brasil padece, hoje, dos mesmos sintomas febris de 86 anos atrás. E os efeitos do estado crítico se farão sentir na disputa eleitoral de 2006, em cujo clima emergirá a mesma dúvida do passado: os macróbios – aqui entendidos como decrépitos mentais – ganharão de perfis imaculados?
A pergunta expõe a dualidade de um ano eleitoral que se afigura como fecho do ciclo político iniciado em 1964: velho versus novo, corrupto versus honesto, carisma versus racionalidade, passado versus futuro. Esses são eixos do jogo antinômico que marcará o discurso político-eleitoral, cujo acirramento atingirá um nível sem precedentes por conta da magnitude do troféu a ser disputado. Mais que luta entre atores e partidos para chegar ao poder, rotina litúrgica das democracias, o pleito de 2006 porá um ponto final no capítulo da história brasileira iniciada nos anos de chumbo.
O ápice da mobilização libertária se deu com a eleição de Lula, ícone da resistência, cuja origem pobre amplificou a vitória do partido que simbolizava a ética na vida pública. E aí o PT foi flagrado na maior armação partidária da era republicana, ao tentar ?institucionalizar? práticas imorais históricas e ?partidarizar? a estrutura do Estado. Ao manchar o slogan ?a esperança venceu o medo?, a lama petista maculou símbolos da resistência, como José Dirceu, respingando na imagem do próprio Lula. Evaporou-se a seiva asséptica fincada na consciência coletiva por obra do persistente bumbo petista. Assim, a crise política, arrastando-se até as margens do pleito, abrirá uma encruzilhada onde figurantes que ganharam musculatura nas penumbras da ditadura travarão a última batalha. De um lado, o PT, ameaçado de ser escorraçado do centro do poder, depois de pelejar três décadas para aí chegar; de outro, a oposição, cujo ajuntamento maior se abriga nos espaços do PSDB e PFL.
Na arena, cada força se esforçará para lustrar a identidade, afastando a pecha de abrigar corruptos, e procurando enaltecer valores como verdade, dignidade pessoal, moral partidária, autoridade, para preencher as lacunas apontadas ao longo da crise. A ideologia estará em segundo plano por questões óbvias. O conflito de classes foi sepultado sob os escombros do Muro de Berlim e o PT não tem interesse em resgatar o libelo socialista. Por outro lado, a liberdade, os direitos sociais e individuais foram devidamente garantidos na Carta de 88. Os velhos chavões morreram para dar lugar a um novo mote que deverá ser ouvido nas bandas radicais, endereçado diretamente ao PT: ?Não ao neoliberalismo?.
Entre os valores, a verdade será a mais aclamada. As versões sobre culpa e culpados, mensalões e mensalinhos, conhecimento/desconhecimento de propinas elegem a mentira como a maior mazela da atualidade. Da mesma forma como no passado. Eis como o perspicaz Rui descrevia o ambiente de 1919: ?Mentira de tudo, em tudo e por tudo. Nas promessas. Nos programas. Nas reformas. Nos homens, nos atos, nas coisas. No rosto, na voz, na postura, no gesto, na palavra, na escrita. Mentira nos desmentidos?. Basta ver as acareações nas CPIs para constatar que o Brasil é um eterno recomeço. Não por acaso, os brasileiros clamam por um presidente com autoridade para pegar o bastão e proclamar: ?Basta de bagunça. Vamos trabalhar?. Este é o sentimento coletivo. Os eleitores irão para as urnas da democracia representativa, no próximo ano, com a disposição com que votaram racionalmente nas urnas da democracia direta, no recente referendo.
O pleito presidencial será iluminado pelas luzes do referendo. A população gostou de votar de maneira autônoma. É razoável supor que o fator racional balizará a eleição, fazendo-se presente na avaliação dos perfis. Os candidatos passarão por quatro filtros: político, econômico, cognitivo e organizativo. Pelo primeiro, o candidato terá de tecer uma rede de alianças capaz de aumentar a capilaridade junto à população e ganhar visibilidade nas mídias; o segundo abrigará a massa financeira para a tarefa de buscar votos, na esteira de denúncias sobre ?recursos não contabilizados? de campanhas; o terceiro consistirá na formulação de um discurso eficaz, gerador de empatia e confiança; e o último será a montagem de estrutura e a mobilização de partidos e quadros. O tom maior, porém, será dado pela carga de angústias e expectativas, fruto da violência, do desemprego e da precariedade dos equipamentos urbanos e dos serviços públicos. Cada eleição ocorre sob uma taxa de infelicidade coletiva. O eleitor tende a eleger aquele que melhor der respostas às carências do bolso, da cabeça e do coração. E que seja mais imaculado e menos macróbio.
Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político.