O presidente Lula, do alto da gabolice, proclamou há dias não haver no País pessoa mais ética que ele. Para eleger seu candidato, Aldo Rebelo, à presidência da Câmara, o governo engrossou o rolo compressor, prometendo mais de R$ 1,5 bilhão para o Ministério dos Transportes, comandado pelo PL, e oferecendo cargos aos partidos envolvidos no escândalo do mensalão. Ganhou por 15 votos. Há 15 parlamentares ameaçados de cassação. Quanta indecência! O ex-ministro José Dirceu, falando com a convicção de que sabe tudo, atribuiu a Lula ?responsabilidade política? pela crise. O mandatário, que tanto aprecia discursos, faz ouvidos de mercador e não passa recibo à ênfase posta por seu ex-braço-direito. Lula tem tanta responsabilidade pela crise quanto conhecimento da tática de arrumação parlamentar, adotada por ele, na semana passada, para salvar o que resta de seu governo.
O alagoano Renan Calheiros, presidente do Senado, convenceu o presidente do seu partido, Michel Temer, a se candidatar à presidência da Câmara. No mesmo dia, conversou com Lula e escolheu Aldo Rebelo como candidato da base governista. Por quê? Porque o também alagoano Thomaz Nonô, no comando da Casa, causaria danos à sua candidatura ao governo de Alagoas. Questão paroquial passou a ser questão federal. Além de trair o presidente do PMDB, sigla a que pertence, jogou no lixo a fidelidade partidária. Para agravar a performance, usou a força que detém no comando do Senado para interferir na Câmara. Leitura: se a instituição política chafurda na sarjeta, é porque há lideres que fecham os olhos à ética. Quanta indecência! No âmbito das CPIs, parlamentares denunciados respiram, aliviados, no balão de oxigênio do Conselho de Ética e da Corregedoria da Câmara, esperando contar com a boa vontade do novo presidente da Casa, testemunha de defesa do ex-ministro José Dirceu. Aldo acha liberação de verba ?ato ordinário, cotidiano? e afirma ter ?coragem e isenção? para absolver colegas.
O quadro é estarrecedor. Agora, a sociedade se depara com a figura do presidente da República no centro das negociações. (E continuam a garantir que ele não sabia de nada de mensalão?) Lula até se pode vangloriar como César, na travessia do Rubicão: ?Vim, vi e venci?. Precisa tomar cuidado. Sua maior conquista política poderá vir a ser uma vitória de Pirro, aquele rei de Épiro que, depois de comemorar vitória parcial sobre o poderoso exército romano, constatou que ?mais uma batalha daquelas? destroçaria seus exércitos. O governo andará no fio da navalha com a Câmara dividida ao meio. Já está abrindo os cofres. Caso não o fizesse, a frágil maioria se desmancharia. Lula será prisioneiro das forças mais retrógradas do Congresso.
É evidente que procurará desvencilhar-se das cordas brandindo a lâmina – já não tão afiada – do carisma. O homem veio mesmo para o centro do tapume. Ao receber atletas e vestir um quimono, nessas cerimônias circenses que funcionam como gastronomia dos olhos no banquete da crise, Lula se disse pronto para a briga e disposto a entrar no ?tapume?, em lugar do tatame usado por judocas. Não, não houve confusão, conforme registrou a imprensa. Houve paralisia labial, para usar a expressão de José Ingenieros: ?O hábito da mentira paralisa os lábios do hipócrita?. O inconsciente de Lula falou mais alto. O tapume é o esconderijo apropriado para negociações com recursos não contabilizados (mensalões) ou recursos contabilizados (supermensalões). Quem deve mais sofrer com o ciclo ?Lula no tapume? é Palocci. Sob pressão de barriga estufada, estoura-se o cinturão econômico. O ministro da Fazenda não se pode queixar, pois ele também vetou Temer em prol de Rebelo.
Quanto a este, trata-se de perfil com visão histórica de país e causa boa impressão a interlocutores. Não faltará vontade para lapidar a imagem destroçada da instituição. Esbarrará no busílis. Não haverá tempo para alcançar a meta. E a sociedade está tão irritada com os políticos que não distinguirá a limpeza que se fizer no retrato da Câmara. O comprometimento de Aldo com os aliados – incluindo os 15 nomes na lista de cassáveis – fará pender a ?isenção? para os ameaçados. Não há coração que resista à pressão de luta travada com emoção. Um pouco de calor agradecido adoçará sua postura.
No mais, a vitória de Lula fornece a cola para grudar os interesses interpartidários. PSDB e PFL fortalecerão a aliança para 2006. O PMDB, mesmo dividido, expandirá o teor crítico. Há uma decisão de convenção, não derrubada, defendendo candidatura própria à Presidência da República. Tanto a ala do Renan Calheiros quanto a do Michel Temer aprovam a candidatura própria. O que sobrará ao governo? PT, ?sub judice?, partidos ?queimados? e pequena fatia ideológica. Lula continuará a estratégia de desmontar a crise apresentando os resultados da economia. É pouco para a reeleição.
Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político.