O interessante livro escrito por Simone de Beauvoir, O pensamento de direita, hoje, foi lançado no Brasil pela Editora Paz e Terra (RJ) em 1972, exatos 17 anos depois da primeira edição feita pela Gallimard. Simone e Jean-Paul Sartre, ao lado de vários outros intelectuais franceses, foi exponencial na cena pública do fervilhante período compreendido pelas três décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, que registraram entre outros acontecimentos a vitória da Revolução Cubana, a libertação da Argélia, a guerra do Vietnã e as manifestações estudantis de 1968 em Paris.
No Brasil, viveu-se um clima de ebulição política desde o suicídio de Vargas em 1954, culminando dez anos depois com o golpe militar que derrubou o governo constitucional de João Goulart e o ingresso do País numa longa sucessão de governos presididos por generais (Castelo, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo), até a vitória de Tancredo Neves no colégio eleitoral em 1985. De resto, um tempo marcado pelo predomínio do pensamento político-ideológico de direita, emanado dos meios castrenses pela construção do que passou a ser conhecido como doutrina de segurança nacional e com o apoio maciço de banqueiros, empresários da indústria e do comércio, latifundiários, proprietários de grandes jornais e, nos governos estaduais e tribunas de ambas as casas do Congresso, uma mescla de políticos oriundos do PSD, UDN e PTB encravados numa contrafação de partido político, a Aliança Renovadora Nacional (Arena).
A oposição consentida pelo governo militar reuniu-se no Movimento Democrático Brasileiro (MDB), o regime de exceção vetara o emprego do vocábulo ?partido?, mas de modo curioso esse grupamento também se formara com base na diminuta arregimentação de egressos dos mesmos partidos que constituíram a Arena. Ao passo que Antonio Carlos Magalhães, José Sarney, José Bonifácio e tantos outros militantes da velha UDN assumiam claramente a vocação pelo conservadorismo de direita, cerrando fileiras na Arena, Ulisses Guimarães e Tancredo Neves abriram o cortejo de políticos com forte visão progressista, alçados dos bancos acadêmicos, das profissões liberais ou das vanguardas nacionalistas do PSD/PTB de Vargas e Juscelino para a corajosa composição do MDB velho de guerra.
A rigor, a atualidade do pensamento de direita no Brasil ainda vem a ser o apanágio das mesmas figuras que estiveram à frente da Arena ou em cargos estratégicos no primeiro escalão dos governos militares. ACM, José Sarney, Jorge Bornhausen, Marco Maciel e, voilá, Cláudio Lembo, excluindo o benefactor maranhense os demais pertencentes ao Partido da Frente Liberal (PFL), nada menos que a Arena constrangida e aliviada da excrescência do Partido Progressista resultante da diáspora comandada pelo inefável Paulo Maluf, ocupam com todos os méritos lugares antes preenchidos por Filinto Müller, Petrônio Portela, Tarso Dutra, Dinarte Mariz ou Francelino Pereira, alguns dos ilustríssimos avestruzes que pontificaram no período em que a Arena evoluiu de partido do sim para o do sim, senhor.
Na antevisão duma derrota acachapante que causará irreversível enfraquecimento tanto do PSDB quanto do PFL, não haverá problemas para ambos na superação da chamada cláusula de barreira, mas a segunda derrota sucessiva na disputa pela Presidência da República decerto cobrará preço deveras elevado, os cardeais lavam em público a roupa suja e malcheirosa até agora escondida pelo cortinado da aparente concórdia e unidade na luta para resgatar o País das mãos do governo inquinado de inepto e corrompido.
Contribuiu também para o afloramento da súbita porfia verbal entre o governador Cláudio Lembo e o senador Antonio Carlos Magalhães, com um esgrimir de insultos poucas vezes observado na política nacional, a nefasta operação desencadeada pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), com uma série de atentados contra policiais e represálias da parte da força regular e a destruição de instalações físicas do governo e iniciativa privada, fazendo com que a população paulistana vivesse autêntico clima de terror no final de semana destinado à comemoração do Dia das Mães.
É que no calor do monumental ataque do crime organizado, o governador Cláudio Lembo atribuiu à ?elite branca e cruel? a maior parcela de responsabilidade pelo abissal desequilíbrio socioeconômico existente no Brasil e das mazelas daí resultantes, como a carência de oportunidades para o desenvolvimento humano no sentido lato da idéia.
Nada mais aborrecível para o pensamento de direita, hoje, como há cinco décadas. Ou melhor, desde que o homem assumiu de vez sua condição de lobo dos semelhantes.
Ivan Schmidt é jornalista