Hélio Duque

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O vazio e a insegurança individual no tempo contemporâneo gerou a procura de livros de auto-ajuda em ritmo frenético. A indústria livreira encontrou um fantástico nicho comercial nos autores que se aventuram em escrever essa subliteratura, que tem uma grande aceitação por ávidos leitores. O fenômeno não é circunscrito ao Brasil. Em qualquer livraria de Paris, Madri, Londres, Nova York, Moscou, Tóquio ou Pequim, as estantes dos livros de auto-ajuda ocupam lugar de destaque. É uma realidade mundial que aflorou com ímpeto vigoroso nas últimas duas décadas.

O jornalista e pesquisador inglês Francis Wheen, despertado para o tema, aprofundou estudos e constatações do cotidiano sobre o assunto e sua influência em episódios recentes. Com enorme êxito, publicou na Inglaterra, em 2004, valioso livro que se espalhou pelo mundo. No Brasil, a Editora Record adquiriu os direitos autorais e acaba de fazer chegar às livrarias.

Como a picaretagem conquistou o mundo. É o título brasileiro do livro de Francis Wheen. É uma leitura recomendável. Nele, o autor argumenta que a humanidade vem caminhando a passos de siri. Daí a predominância de um processo onde gurus e superstições histéricas vêm batendo de frente com os valores instituídos pelo iluminismo. A hostilização dos valores iluministas como a razão, questionamentos pré e pós-modernos estão na raiz dos equivocados procedimentos desses charlatães contemporâneos.

A influência dos magos, gurus e outros membros da numerosa ?família? chega a influenciar os destinos do mundo. O autor inglês cita o fato ocorrido em 1985, quando do encontro entre Ronald Reagan, presidente dos EUA, e Mikhail Gorbachev, presidente da URSS, para discutir o desarmamento nuclear. Uma das pessoas mais ouvidas por Reagan era uma astróloga de São Francisco, que argumentava a partir de um ?dossiê? sobre peixes, o signo do dirigente soviético. No presente, uma parcela substancial de norte-americanos, inclusive o presidente George W. Bush, acredita que o mundo tem cinco mil anos de idade.

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O ritmo intenso da vida moderna leva muita gente a se sentir um pouco perdida, daí se voltar para os gurus, livros de auto-ajuda e outras superstições. De acordo com Francis Wheen: ?Poucas semanas depois de 11 de setembro, um livro sobre Nostradamus chegou à lista dos mais vendidos no EUA, porque alguém começou achar co-relações com as suas chamadas profecias?.

O livro Como a picaretagem conquistou o mundo vem obtendo grande êxito nos diferentes quadrantes do planeta, é muito recomendável para brasileiros inteligentes. A nossa realidade é de alta permissividade por variados fatores, para a acumulação deformante de um pensar ilógico e irracional. E onde viceja um analfabetismo funcional que atinge dois terços da população; em que a cultura oral, televisiva e radiofônica é a principal matriz de informação, o campo é fértil para o avanço daquilo que o autor define como picaretagem da superstição. A televisão aberta, sem exceção, no Brasil é um poderoso instrumento de alienação dos problemas reais que afetam a sociedade, ajudando a disseminação dessas visões deformantes.

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O regressionismo no pensamento humano é um momento passageiro, mas hoje está em ebulição. Daí a importância do livro de Francis Wheen e do seu pensamento original: ?Esse tipo de clima pode ser explorado por demagogos. É assustador pensar em como as pessoas podem ser manipuladas, algo que o iluminismo combateu. O iluminismo evitou que fôssemos torturados por ousar dizer que o Sol não girava em torno da Terra. Ninguém pode ter medo de dizer que o imperador está nu?.

A firme crença na liberdade e no humanismo militante, onde a pluralidade de opinião é fundamental, jamais a mistificação e a superstição de gurus pós-modernos, é a essência desse oportuno e necessário livro.

Hélio Duque é doutor em ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.