Limites de convivência

A visita de negócios que o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad faria esta semana a Brasília e São Paulo, apesar do protesto formal do governo de Israel e da comunidade israelita radicada no Brasil, tinha sido definida pelo ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, como um direito incontestável da soberania brasileira de receber chefes de Estado e representantes de outros países, sublinhando o fato de o Irã ser um importante parceiro comercial brasileiro. Porém, na manhã de ontem, Ahmadinejad cancelou a visita sem dar maiores explicações.

Antes de saber do cancelamento, no domingo, comunidades judaicas de São Paulo e Rio de Janeiro protestaram contra a visita, sendo provável que as manifestações voltassem a ocorrer em alguns dos locais que seriam visitados pelo governante iraniano. Contudo, esperava-se que o bom senso prevalecesse e a demonstração de desagrado não ultrapassasse os limites da convivência civilizada. Na recente conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre racismo, em Genebra (Suíça), Ahmadinejad voltou a questionar a existência do Holocausto, ou seja, o extermínio de milhões de judeus por nazistas durante a II Guerra Mundial. Esse é o motivo principal alegado por integrantes da comunidade judaica no Brasil para protestar contra a vinda de um chefe de Estado que prega abertamente a eliminação total do Estado de Israel.

Amorim procurou minorar o teor do protesto, lembrando que o Brasil mantém relações diplomáticas e comerciais com o Irã, que “é um grande país, com indiscutível papel no Oriente Médio e é um parceiro”. Aliás, um dos itens da agenda do presidente iraniano seria o anúncio da linha de crédito de US$ 200 milhões para facilitar as exportações brasileiras, tendo em vista que seu país depende da importação de grande parte dos produtos consumidos pela população. O governo do Irã também demonstrou interesse em apoiar um pacote de investimentos no Brasil para estimular a produção e exportação de milho e óleo de soja. Por outro lado, o programa de privatizações iniciado em 2007 pelo governo do presidente Mahmoud Ahmadinejad, deseja atrair investimentos brasileiros para os setores de siderurgia, petróleo e petroquímica, mediante o oferecimento de condições especiais.

Os organizadores do que seria a agenda oficial do presidente do Irã chegaram a desaconselhar a visita programada para a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), uma tradição seguida por todos os chefes de Estado que vêm ao Brasil. O próprio Ahmadinejad julgou de bom alvitre quebrar a tradição ao ser informado da resistência levantada pela poderosa comunidade judaica de São Paulo em relação a uma possível visita. A missão empresarial iraniana, entretanto, seria recebida na Fiesp para discutir negócios nas áreas de energia, produção de equipamentos elétricos, combustíveis e comércio.

Uma fonte do Ministério das Relações Exteriores esclareceu que o papel do governo brasileiro é agir com pragmatismo a fim de cooperar para o andamento das negociações, “embora não seja fácil porque há uma carga ideológica muito forte”. O governo também tem uma posição crítica ante determinadas atitudes tomadas pelo presidente do Irã e, recentemente se manifestou contra as declarações consideradas antissemitas de Mahmoud Ahmadinejad, na rumorosa conferência da Organização das Nações Unidas. O diplomata em questão assinalou, no entanto, que o Irã tem uma representação parlamentar de católicos e judeus, “maior que a proporção desses grupos no total da população”.

A política externa brasileira se pauta pela aproximação e negociação com os demais governos, visando evitar o isolamento de economias importantes. Por exemplo, o Irã é um país que está crescendo em média 5,5% nos últimos 20 anos, além do notório esforço para incrementar a dinamizar a industrialização. A maioria dos países europeus mantém relações comerciais com o país, mesmo que a China tenha arrebatado da Alemanha a bandeira de maior parceiro comercial. Para os agentes orgânicos da diplomacia brasileira, manter livres os canais de negociação, além do direito à soberania, é uma prova cabal de que as barreiras ideológicas devem ser removidas.

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