Lilipute nos trópicos

A ficção de Lilipute tornou-se realidade em Pindorama, e desembarcou no estamento que a circunstância qualifica de ente governamental, espraiando-se a partir do núcleo central por muitos estados e municípios, em impetuosa corrente. A consciência civilista é agredida pelo nível de desregramento a que se entregaram alguns dos guardiões da res publica, na sua clássica divisão entre Executivo, Legislativo e Judiciário.

A sociedade é massacrada pelo noticiário policialesco dando conta de atividades pouco ortodoxas, para usar um eufemismo, de personagens postados nas culminâncias dos poderes citados, nos quais os baixos instintos estão causando prejuízo moral mais abundante que a ação dos vários ramos da organização criminal que assumiu, nas maiores capitais, o controle do tráfico de drogas e da jogatina, na verdade, meras fachadas a encobrir crimes mais sofisticados como a lavagem de dinheiro e a expatriação de divisas.

A credibilidade popular, em queda livre, chegou ao fundo do poço com a descoberta, baseada em escuta telefônica, do envolvimento pessoal de desembargadores e juízes federais com a máfia do jogo do bicho e caça-níqueis do Rio de Janeiro. De uma tacada a Polícia Federal prendeu 25 pessoas, entre elas quatro magistrados, sobre os quais pesa a acusação de terem subscrito sentenças ou medidas liminares protegendo a atividade criminosa.

Tais personagens, gozando de privilégios jamais estendidos ao reles cidadão que moureja para sustentar a avidez monetarista dos governos, passaram alguns dias na carceragem da PF em Brasília, onde foram constrangidos a se fartar com o conteúdo de quentinhas – para alguns, suprema humilhação – e a dormir sobre colchonetes e beliches.

Agora estão em casa, onde aguardam o processo em liberdade, sob o manto sagrado da jurisprudência complacente tecida pela sapiência de iluminados paredros do topo da pirâmide social, é válida a conjectura, quem sabe excitados pela premonitória percepção de que um dia o cipó pode voltar ao lombo de quem mandou dar. Os bicheiros, delegados federais e seus advogados seguem trancafiados em Brasília, posto que uma pletora de juristas de alto calibre esteja em operação diuturna, brandindo mil e uma filigranas encavilhadas na conspícua interpretação dos códigos, a fim de conseguir a soltura dos inofensivos e ilibados clientes.

Assim é Lilipute. Uma terra de nanicos morais, onde os governantes fingem governar e a sociedade finge ser governada. Legisladores, quase todos, gastando o tempo a produzir obviedades e platitudes, não raro hipnotizados pelas benesses distribuídas pelo poder para estabular a oposição numa animada falange que fala muito, mas não tem poder de fogo. E, enfim, a abominação da desolação: magistrados enxovalhando a honradez e a nobilíssima carreira funcional com a imundície segregada dos esgotos do crime organizado.

Para não esquecer, liliputianos são também os incontáveis áulicos premiados pela cornucópia dos cargos de confiança em todos os quadrantes da mãe gentil ajoelhada, espécimes que teriam surpreendido Darwin pela extrema aptidão de aplaudir roboticamente o chefe supremo, sempre que o estímulo lhes chega por meio do mecanismo de controle mental aperfeiçoado pelo Grande Irmão.

Afinal, a palavra dum raro brasileiro, poupado pela morte de ver tanta ignomínia. Vivo fosse, teria vergonha de reafirmar que a revolução moral, política e tecnológica brasileira ?deverá sair da bandeira do Partido dos Trabalhadores? e não dos ?velhos moldes do capitalismo das nossas classes dirigentes?. Revolução para fazer da Amazônia ?uma nova civilização fluvial, cortando in limine os atuais projetos que levam à sua desertificação?, e da agricultura tropical não o laboratório das ?técnicas de produzir artificialmente para se vender no mercado externo, onde os recursos resultantes são distribuídos pelos grupos internacionais?.

Esse brasileiro foi Mário Pedrosa, um dia louvado por Lula como a antítese de Lilipute.

Ivan Schmidt é jornalista.

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