Ariane Holzbach
Rádios, jornais, correntes religiosas, correntes filosóficas, irmandades, entidades a favor dos sem terra, portais científicos, amantes de motos, blogs, sites sobre expressões jurídicas, fóruns de discussão… A lista de páginas on-line que utilizam o termo ?liberdade? é infinita. A julgar pelos sites de busca da internet, parece que estamos numa verdadeira era libertária, pelo menos nos países de língua portuguesa. O todo-poderoso Google registra nada menos que 1.020.000 sites que contêm a palavra, enquanto no Yahoo esse número parece modesto, já que o registro sobe para 3.830.000.
A popularidade dessa palavrinha de origem latina prova que, nos dias de hoje, muita gente crê que liberdade nada mais seja que ter opção de decisão sobre qualquer questão, especialmente no que diz respeito a algo bastante em moda: liberdade de imprensa. É poder dizer o que se quer na hora que se quer ou defender a causa que for pelo motivo que for. E se, porventura, aparecer alguém que diga que determinada questão não é correta, os defensores da liberdade incontestável berram seus cartazes: É censura! Voltamos à ditadura! Não somos um país livre! Tenho o direito de cidadão de expor minhas opiniões! etc., etc.
Apesar de ter como premissa almejada por muitos ser livre, a imprensa está recheada de casos em que a liberdade de expressão é confundida com irresponsabilidade. No início de abril, um jornal eletrônico que se auto-intitula ?Centro de Mídia Independente?, só para me restringir a um exemplo, publicou uma matéria afirmando que a Polícia Federal descobriu uma fraude na Mega-Sena. Tratar-se-ia, vejam só, de um bando de fraudadores que teriam colocado pesos diferenciados nas bolinhas do sorteio, manipulando os resultados. O jornal diz que há casos de pessoas que já angariaram R$ 4 bilhões só nos sorteios e que a notícia mal-e-mal foi divulgada pela Globo e pela Band. Vejam o parágrafo que chama a ?matéria?, assinada por um tal de Piolim: ?Mais um episódio para fazer de palhaço o povo brasileiro, desta vez, impedindo-nos até de sonhar. Quantos de nós não fazemos uma fezinha em jogos de azar patrocinados pelo governo (azar para nós) e sonhamos com uma vida melhor, pois só ganhando na loteria para melhorar esta merda de vida pela qual passamos. Agora vêm esses filhos de uma puta fraudar até nossos sonhos?.
Tanto a Globo como a Band desmentem a divulgação das matérias utilizadas como exemplo. E, pior, não há nenhuma referência a possíveis fontes informativas no texto. Uma matéria quase bizarra, concorda? Você, caro leitor, pode até perceber a falta de jornalismo sério que culminou nesse texto descabido, mas será que todos os internautas com acesso à página compartilhariam dessa opinião? Dando uma olhada nos comentários enviados ao site, a reposta é clara. Muitos leitores se mostram indignados com a atitude da grande imprensa, que estaria escondendo o jogo, além de cobrar a responsabilidade das autoridades. A polêmica obrigou a Caixa Econômica Federal a mandar uma resposta ao site, afirmando que é idônea e que nem a empresa nem a Mega-Sena estão sendo investigadas.
Liberdade de imprensa não é, de maneira nenhuma, o mesmo que imprensa irresponsável. Isto não quer dizer que vivemos em um terreno livre, onde todos têm o mesmo poder perante o mundo. Estamos, na verdade, mais para O Jardim das Delícias de Bosch, do que para o paraíso de Adão e Eva antes da maçã. O que devemos procurar é uma imprensa livre de amarras, que não siga determinado perfil editorial por questões mercadológicas e que abrace textos quiçá polêmicos, mas que não peque pela falta de comprometimento com a busca pela verdade.
Ariane Holzbach é jornalista no Rio de Janeiro. E-mail: arianediniz@uol.com.br.