Juros da discórdia

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) reduziu a taxa Selic de 12,75% para 11,25% (1,5 ponto percentual), seguindo uma tendência esboçada na véspera pelos principais analistas de mercado, que passaram a considerar o corte inevitável diante da queda de 3,6% do Produto Interno Bruto (PIB) no último trimestre de 2008, em relação ao trimestre anterior. A decisão foi tomada por unanimidade pelos membros do comitê, sem viés, embora a nota distribuída pelo órgão tivesse ratificado o compromisso de acompanhar a evolução da trajetória prospectiva para inflação, “levando em conta a magnitude e a rapidez do ajuste da taxa básica de juros já implementada e seus efeitos cumulativos, para então definir os próximos passos na estratégia de política monetária”.

A redução da Selic levou o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, a afirmar, em evento realizado em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, que a “taxa básica de juros pode chegar a um dígito ainda neste semestre, sem comprometer a inflação”. A visão otimista contagiou também outra ilustre participante, a ministra-chefe da Casa Civil Dilma Rousseff, para quem a crise internacional é uma oportunidade para futuras quedas da Selic. “Essa conjuntura internacional inflacionária é uma oportunidade única para que o Brasil possa ter juros civilizados”, admoestou a virtual candidata da base governista à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2010. As declarações da ministra foram testemunhadas e, por certo, aprovadas, pelo governador de São Paulo José Serra (PSDB), igualmente pré-candidato à presidência da República e um dos convidados de honra do seminário sobre impactos da crise financeira global no desenvolvimento econômico.

No mesmo dia (quarta-feira) em que o Copom anunciou a redução de 1,5 ponto percentual na taxa básica de juros da economia brasileira, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) apresentava um estudo demonstrando que o Brasil é o segundo país mais prejudicado pela crise internacional. No confronto com outras economias, entre as quais se destacam Alemanha, Espanha, Reino Unido, Estados Unidos, Japão, Canadá, China, México e Coreia do Sul, o Brasil foi o protagonista da maior retração acumulada do Produto Interno Bruto (PIB), desde o início da desaceleração da economia mundial.

A carranca brasileira da crise foi escalavrada pelo fragor da queda acumulada de 5,3 pontos percentuais do PIB, que é a soma de todos os bens e riquezas produzidos no País durante um ano. Em verdade, a pesquisa apenas confirmou uma intuição generalizada: de um crescimento de 1,7% registrado no terceiro trimestre de 2008, no período seguinte o Brasil arcou com a variação de menos 3,6%. Nos demais países citados na comparação e que também apresentaram diferenças acumuladas negativas, apenas a Coreia acusou pior resultado que o Brasil, com a queda situada em 7,2 pontos percentuais negativos. Todavia, o estudo mostrou que as perdas coreanas se referem a quatro trimestres de retração econômica, ao passo que a lamentável marca brasileira é resultado de apenas um trimestre.

Por sua vez, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) ressaltou, em nota encaminhada aos meios de comunicação, que a redução da taxa básica de juros para 11,25% ao ano, frustrou as expectativas do setor que contava com uma postura mais “agressiva” dos membros do Copom, tendo em vista a necessidade de fortalecimento do arsenal de medidas para enfrentar a acentuada retração do ritmo de produção da indústria brasileira. A reclamação que a CNI fez questão de compartilhar com a sociedade e os demais agentes produtivos, torna-se mais impressiva quando salienta que “esse movimento de aceleração no corte dos juros, ainda que na direção correta, não tem a intensidade necessária ao momento”.

A análise mais drástica sobre a decisão do Copom partiu da Força Sindical, que a inquinou de “nefasta” para os trabalhadores, bradando aos céus que “insensíveis tecnocratas do BC perderam a oportunidade de afrouxar a corda que está estrangulando o setor produtivo que gera emprego e renda”.

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