A ocasião não poderia ser mais propícia para a malhação do Judas, a imprensa, que segundo o deputado federal Michel Temer (PMDB-SP), presidente da Câmara, é responsável por todos os problemas que a instituição tem enfrentado desde a reabertura dos trabalhos em fevereiro desse ano. O nobre deputado paulista, que durante alguns meses foi titular do Ministério da Justiça no governo Fernando Henrique Cardoso, o que não chega a ser propriamente uma vantagem, pois até Renan Calheiros (PMDB-AL) esteve lá, afirmou ver no comportamento da mídia uma ação deliberada para jogar a opinião pública contra a Casa.
Na sessão da última quarta-feira, Temer acendeu o estopim ao se referir à constância do noticiário desfavorável, dando margem a uma série de intervenções dos demais parlamentares, com críticas severas ao tratamento recebido de parte dos meios de comunicação. O item mais destacado do discurso de Temer, também predominante na nota distribuída aos jornais, foi a negativa de que a mesa diretora teria decidido executar as obras de reformas nos apartamentos funcionais, dividindo em dois os de maior metragem, ao custo aproximado de R$ 80 milhões.
Temer reiterou, ainda, que tanto a notícia, mas muito mais as manchetes e fotos utilizadas pelos jornais na exploração do fato, visam colocar a Câmara dos Deputados em confronto com a sociedade: “Vejam que a cultura política vai sendo construída de uma maneira que, se nós não repudiarmos um pouco, não tivermos uma ação muito concreta em relação a isso, não estaremos fazendo um benefício à democracia”. Poucas vezes se ouviu do parlamentar em questão uma defesa tão inflamada em relação à urgência da discussão e aprovação de questões pendentes há várias legislaturas, tais como a reforma da própria instituição, que certamente traria maior agilidade aos trabalhos, além de escoimar do dito cenário uma farândola de carreiristas e aproveitadores.
O líder do PT, deputado Cândido Vacarezza (SP), numa oportuna variação do raciocínio maniqueísta, julgou vislumbrar nas pautas jornalísticas a intenção doentia dos editores, que a seu juízo enviesado, “estabelecem um tema e os jornalistas são obrigados a enquadrar a realidade naquele tema. Não importa o que o deputado fale. Isso pega todos e não contribui para a democracia”. A notável contribuição do líder petista foi sugerir ao presidente Michel Temer que instrua os demais membros da mesa a fazer um ordenamento criterioso na escolha dos temas para análise e os horários das reuniões.
Caso a sugestão de Vacarezza seja viabilizada pela mesa, é possível imaginar que a Câmara dos Deputados resolva a maior parte de seus problemas, ao agir como uma sociedade secreta reunindo-se na calada da noite, nos finais de semana ou feriados. Foi exatamente esta a impressão transmitida pela fórmula estratégica do deputado, que assim espera dificultar a desenvoltura dos pérfidos editores que “não querem difundir a notícia e, sim fazer disputa, em geral, com posições conservadoras contra o parlamento brasileiro”. As ponderações de Vacarezza receberam o endosso do líder do Democratas, deputado Ronaldo Caiado (GO), que identificou nesse abominável comportamento da imprensa a “tônica de se querer eleger o político como a figura mais desprezível da sociedade”. Uma cavilação que deve ser prontamente rechaçada, por ser inaceitável e difamatória, segundo a ótica do referido varão de Plutarco.
O paranaense Ricardo Barros (PP), parlamentar que adotou como questão de honra e característica indelével de sua atuação, jamais assumir posição contrária a quem estiver no governo, observou que se a imprensa minimiza o esforço pela transparência, a Câmara não deve fazê-la: “Cada vez que uma boa intenção não for valorizada pela imprensa, e ela deixar de ser realizada, eles vão aprender que, quando decidirmos dar um passo na direção certa, ou eles valorizam ou o passo não será dado”. A equação é um primor de sensatez e acuidade: se os jornais não estiverem a fim de aplaudir as medidas tomadas pela Casa, simplesmente elas serão arquivadas, mesmo em se tratando de “boas intenções”, das quais os cemitérios estão repletos.