Que a eleição é uma oportunidade para se passar um país a limpo, não há dúvida. Da mesma forma, é correta a idéia de que o pleito deve servir para que a sociedade conheça a fundo as idéias dos candidatos. Errado, porém, é transformar o principal em acessório. Pérfido é abusar do princípio maquiavélico – os fins justificam os meios – para chegar à vitória. Por mais que a imprensa abra espaços para a visão dos candidatos a respeito de temas fundamentais – como segurança, saúde, educação, transportes, energia -, até o momento o que se viu foi um mosaico de pontuações, quase sempre superficiais, incrustado na parede da personalização do poder, onde o jogo de cena dos participantes ocupa o centro da arena. Basta ver o desenrolar do segundo turno. Em vez de profunda discussão sobre um projeto estratégico para crescimento do país, o que está em jogo é o desempenho de Luiz Inácio e Geraldo Alckmin na mídia. Quem se sai melhor ou pior na TV, quais as melhores tiradas, quem foi mais cruel e o mais injustiçado, eis o que interessa. A espetacularização suplanta questões de fundo.
A pergunta-chave desta fase da campanha – de onde veio o dinheiro para comprar um dossiê contra os tucanos? – deve ser respondida, como, aliás, reza a cartilha de Lula, onde se lê que ?este governo não coloca a sujeira por baixo do tapete?. Como a resposta balizará o sufrágio, convém que seja dada antes do dia 29. Se aparecer depois, como prega o ministro da Justiça, é porque Maquiavel foi convidado a dar uma ajuda a Lula. Cai por terra a tese de que ?a lógica da ética é a punição?. Justiça retardada por conveniência é malandragem. Como nenhum petista viu a cor do dinheiro, emerge o cenário futurista da mala com a grana viajando no tempo pelo teletransporte do capitão Kirk da nave estelar Enterprise da Jornada nas Estrelas. Até as orelhas do lógico dr. Spock tremem ante a lógica petista. Mas a questão ética não pode e não deve canibalizar os eixos centrais do discurso. Questões fundamentais aguardam definições claras. Como os presidenciáveis pretendem reformar a Previdência Social, a fim de evitar o gigantesco buraco que ameaça inviabilizar o sistema? Gasta-se cerca de 12% do PIB com aposentadorias, mas apenas 8% da população é de idosos. Um pouco mais adiante, o país estará quebrado.
Onde e como serão feitos os cortes nos gastos públicos sem comprometer investimentos em infra-estrutura, sem reduzir investimentos em programas sociais e, ainda por cima, preservando a estabilidade da moeda e garantindo crescimento em torno de 5% do PIB ao ano? Qual é o projeto estratégico com os alinhamentos necessários para o país crescer, a partir das políticas de indústria, agricultura, energia e transportes, rendas e emprego? O que se lê nos programas dos candidatos é um arrazoado de boas intenções. Nada muito convincente. Os vácuos poderão ser preenchidos com debates sobre a realidade brasileira. Consultores independentes fariam uma avaliação imparcial das propostas, ajudando a qualificar o debate e a visualizar o perfil mais adequado para governar o país.
Como a proposição parece inexeqüível, resta voltar à rota da balbúrdia que atordoará o eleitorado até dia 29. Ministros fazem campanha. Recursos são liberados para estados em troca do apoio de governadores ao candidato à reeleição. Nunca se viu um (ab)uso tão escancarado da máquina governamental. Ademais, o petismo-lulismo ressuscita o terrorismo político. Tenta massificar o ?risco Alckmin? com a idéia da ?privataria? da Petrobras, da Caixa Econômica, do Banco do Brasil, dos Correios, em resposta ao ?risco Brasil? que, em 2002, foi usado para desestabilizar a candidatura de Lula. A atual artimanha tem o condão de espalhar fumaça por todos os lados, jogando no colo de Lula os votos ideológicos de Heloísa Helena e Cristovam Buarque.
A fala contra o ?entreguismo? do PSDB forma ondas concêntricas e mobiliza as bases petistas. A tática é eficaz e está levando Lula para a vitória. Para consolidar o voto das margens se insiste no ?social, social, social?, jogando as massas contra o tucano, candidato dos ricos. A imagem de exterminador do futuro, que se tenta colar em Geraldo, amedronta os dependentes do Bolsa Família. O jogo é bruto.
O tom agudo do segundo turno impede uma discussão madura sobre o país. O eleitorado decidirá sob um clima de tensão. Se nenhum fato de impacto ocorrer, não deverá haver mudanças substantivas na decisão de cerca de 90% dos eleitores que já firmaram posição.
Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político.