Ivan Schmidt

A escolha fica por conta do paciente leitor que freqüenta estas duas colunas, que a cada semana me consomem mais ou menos uns cinco mil caracteres. Qual desses personagens – Roberto Jefferson, Marcos Valério, José Dirceu ou Delúbio Soares – escolheria para representar o papel de Al Capone, na versão tupiniquim da peça burlesca atualmente encenada em Brasília?

Caso estivéssemos tratando das atribulações de um chinês na China (apud Júlio Verne), o mais correto seria lembrar a famosa camarilha dos quatro. Mas não, o assunto é tão brasileiro quanto o carnaval e o futebol, embora não faça a menor justiça àquele torrão do qual tanto se gabava o conde Afonso Celso e, menos ainda, ao esplendor retumbante do futuro a ele profetizado por Stefan Zweig.

Este último, pobre coitado, quem sabe vexado pela inominável mancada que dera para agradar o ditador Getúlio Vargas, não viveu o suficiente para testemunhar que, por essas bandas, coisa inexistente é futuro. Exilado no Rio, fugindo do nazismo, não resistiu a um inimigo menos indigesto, a sufocante canícula, subiu a serra e foi morar em Petrópolis para estar em meio a uma paisagem que em tudo lhe recordava as altitudes da doce pátria austríaca, onde deixara os eflúvios valsantes à beira do Danúbio e a intensa vida cultural dos cafés vienenses.

Na serra fluminense matou-se ao lado de Lotte, sua secretária teúda e manteúda. Quem quiser ir a fundo nessa história leia a maravilhosa biografia Morte no Paraíso, escrita pelo jornalista Alberto Dines, ou então veja o filme que Sylvio Back realizou com base nesse relato. Vale a pena, mas a história que vou contar é outra.

Al Capone, o temido Scarface, nasceu duma família de imigrantes italianos radicada no Brooklin, Nova York. Nos anos 20s do século passado, absorvido pela engrenagem da marginalidade como reles batedor de carteiras, foi atraído para Chicago, onde imperava a lei da selva em resultado da violência semeada pelas famílias mafiosas, que se engalfinhavam pelo controle do comércio ilegal de bebidas alcoólicas. Logo, pela competência demonstrada, Capone tornou-se guarda-costas de Big Jim Colósimo, um dos capos da máfia local. Até transformar-se ele mesmo no mais sanguinário gângster da história americana.

Ao longo da década, o principal negócio da máfia era o contrabando de álcool, e Scarface foi eliminando um a um os grandes operadores desse e de outros crimes como a jogatina e o lenocínio, até assumir a de chefia suprema da bandidagem na região de Chicago. A própria polícia e muitos juízes eram comprados pela máfia para fazer vistas grossas à transgressão da lei, sendo que políticos importantes da cidade foram financiados com o dinheiro sujo do vício. O caixa dois da época.

O negócio era tão lucrativo que na altura de 1925, segundo relatório do governo, os ganhos de Al Capone e seu sócio Tórrio haviam chegado a US$ 70 milhões por ano. Eles haviam transferido o comando para Cícero, cidade bem menor que Chicago, na qual o capo estava a salvo do assédio da imprensa, de policiais e políticos corruptos e de toda a laia de cafajestes que sói ganhar vida no ambiente da criminalidade.

Não demorou e Capone estava dando dinheiro para eleger o prefeito local, assim como de cidades vizinhas. As festas em comemoração eram autênticas bacanais, com vadias, bandidos, políticos e bajuladores de sempre enlouquecidos pelo champanhe e fumaça dos charutos. A Editora Civilização Brasileira publicou em 1972 o romance Al Capone, de John Roeburt, baseado no script do filme homônimo cujo protagonista foi o premiado ator Rod Steiger. Sobre a festa pela eleição do novo prefeito de Cícero ele escreveu: ?O alarido aumentou quando o alcoviteiro Vic Paterno apareceu com um enxame de marafonas, colhidas nos bordéis da cidade. À uma hora da madrugada, eles tocaram fogo num retrato do derrotado prefeito Dever, num assassinato simbólico que por pouco não incendiou o hotel?.

Não veja o leitor qualquer similitude com as festas dadas em Brasília, a soldo da cornucópia de Marcos Valério, para as quais o deslumbrante arquivo de dona Jeane Quarteirão era fonte interminável de carne de primeira. Nem tudo era festa, porém. A gangue de Al Capone também executava o trabalho duro de explodir frotas de caminhões ou casas comerciais de supostos adversários, eliminando-os com rajadas de metralhadora. Favor não confundir com a inteligência elegante do marketing político e da publicidade, em voga por aqui, malgrado ter-se transformado no caso em foco em biombo tão rentável quanto o contrabando de uísque em inocentes garrafas de leite.

E dizer que Al Capone somente foi condenado pelo crime de sonegação do imposto de renda, graças à ação do grupo policial que passou à história como ?os intocáveis?. Uma força-tarefa de 150 agentes de várias instituições, dentre elas Receita, Polícia Federal e Ministério Público faz uma varredura em ministérios, bancos, fundos de pensão e partidos políticos. O Al Capone de Pindorama e seus asseclas, por certo, vão tocar piano.

Ivan Schmidt é jornalista

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