Um malcheiroso rio de lama começa a escorrer pelos desvãos do aparato de polícia, segurança institucional e informações do governo, bombeado pela guerrinha deflagrada entre a Polícia Federal (PF) e a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), após a publicação de notícias sobre a apreensão de documentos pessoais do delegado federal Protógenes Queiroz, que deu voz de prisão a Daniel Dantas, Celso Pitta e Naji Nahas, cumprindo mandado expedido pelo juiz Fausto de Sanctis, da 6.ª Vara Criminal Federal de São Paulo, responsável pelo inquérito judicial motivado pela Operação Satiagraha.

continua após a publicidade

Outra volta no mesmo parafuso acaba de ser exibida pelos jornais, dando conta que entre documentos apreendidos pela PF na instrução do inquérito que apura denúncias de vazamento da Operação Satiagraha encontram-se informações estratégicas da Abin, incluindo algumas de natureza estritamente confidencial que aparecem em relatórios secretos encaminhados ao presidente da República. Em meio a esse material “há dados sobre exploração mineral no País, controle de fronteiras, espionagem internacional e contra-espionagem, além de trabalhos voltados ao monitoramento de movimentos sociais e terrorismo”.

Sem entrar no mérito da questão, que é extremamente delicada à vista do envolvimento de instâncias superiores da administração federal, a informação publicada é sobremaneira inquietante e, pelas reações compreensíveis de intranqüilidade que a sociedade poderá demonstrar, requer imediato esclarecimento de parte do próprio gabinete da Presidência da República. A cidadania exige explicações definitivas em lugar das tradicionais arengas palacianas, cuja utilidade mais visível é aumentar as dúvidas da população. O dever do governo, num momento crítico como o atual, é agir com o peso de sua autoridade, na qual com inteira razão a sociedade já vai perdendo a confiança, com a finalidade para afastar de uma vez por todas o sentimento de que a cizânia precisa ser erradicada dos setores da máquina administrativa, nos quais se intromete com irresistível cupidez.

A Agência Brasileira de Inteligência, subordinada ao Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (GSI), na ocasião dirigida pelo delegado Paulo Lacerda (ex-diretor da Polícia Federal), segundo se sabe, cedeu agentes de seu quadro para atuar na Operação Satiagraha, a pedido do delegado Protógenes Queiroz, que tinha dificuldades até para marcar audiências com o novo diretor da instituição, delegado Luiz Fernando Corrêa, escolhido para a função pelo ministro Tarso Genro. A apreensão de documentos sigilosos da Abin gerou profundo descontentamento na entidade, preocupada com a possibilidade do vazamento de informes que poderiam colocar em risco a vida dos servidores envolvidos na investigação dos casos mais perigosos.

continua após a publicidade

O nível de insatisfação chegou a um ponto tal que calejados agentes não escondem a intensão de, em represália, vazar informações sigilosas sobre integrantes da Polícia Federal, à revelia do alto comando da Abin. A vendeta seria uma resposta ao mandado de busca e apreensão realizado nas residências de Thélio Braun de Azevedo, diretor de operações da Coordenação de Inteligência Estratégica, e Luiz Eduardo Melo, funcionário da Receita Federal cedido para trabalhar na Agência Brasileira de Inteligência. Aliás, Braun comentou com jornalistas ignorar os motivos pelos quais está sendo investigado pela Polícia Federal, que retirou de seu apartamento dois computadores de uso pessoal, além de “um laptop de trabalho da minha mulher que é médica”.

O ministro Tarso Genro se limitou a informar que a Operação Satiagraha está sendo refeita por outra equipe, tendo em vista supostos desvios cometidos pela equipe anterior. Se nada for constatado, diz o ministro, Queiroz pode até ser homenageado por bons serviços. Isto é Brasil.

continua após a publicidade