O primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, sai do cenário político israelense em um momento crítico. As eleições parlamentares estão marcadas para o dia 28 de março e a grande novidade era exatamente a criação do partido Kadima, para dar sustentação a ele rumo à intensificação do processo de paz com os palestinos. Em 2005, Sharon havia renunciado à liderança do partido direitista Likud, após as pressões vindas de seus históricos aliados em meio ao processo unilateral de retirada da Faixa de Gaza. É importante lembrar que ele, fundador do Likud e uma das principais personalidades a contribuir para a expansão e fortalecimento dos assentamentos judaicos, foi o responsável pela desocupação de 25 colônias em Gaza.
Sharon sempre foi uma liderança ideológica e controversa, mas como primeiro-ministro mostrou-se um estadista pragmático, capaz de reconhecer que, a médio e longo prazos, seria muito difícil defender os colonos nos assentamentos daquela região. Afinal, eram cerca de 1,4 milhão de palestinos espremidos em menos de 360 quilômetros quadrados contra oito mil judeus espalhados em confortáveis casas nos assentamentos. Para piorar a situação, essa pequena população judaica consumia 60% da água disponível na região. Sem sombra de dúvida, a manutenção dos assentamentos significaria um enorme custo financeiro e de vidas de jovens soldados e reservistas israelenses. Sharon preferiu o pragmatismo e, unilateralmente, ordenou a desocupação para garantir a segurança da população dentro das fronteiras de 1967, reconhecidas internacionalmente.
O custo de sua decisão foi a perda de apoio de seus correligionários, que consideraram sua posição uma traição. Em meio ao processo de desocupação, cada vez mais Sharon teve de enfrentar o fogo amigo vindo de seu próprio partido. Por volta de outubro do ano passado, já havia ficado claro que, se quisesse seguir o caminho do pragmatismo, não seria mais dentro do Likud. Por isso, fundou o Kadima, para dar sustentação a um mandato pragmático, voltado ao aprofundamento do processo de paz com os palestinos, juntamente com a defesa dos interesses de segurança israelense.
Sharon sabia que sua linha pragmática encontrava grande eco na população israelense, que estava cansada das posições ideológicas de esquerda, com o partido trabalhista, e, à direita, com o Likud. Não contente com isso, arregimentou nomes importantes da esquerda, como o ex-primeiro-ministro Shimon Peres e Haim Ramon, e da direita, dentre eles o ex-prefeito de Jerusalém, Ehud Olmert, o ex-general e ministro da segurança, Shaul Mofaz, e a ministra da Justiça, Tzipi Livni.
As primeiras pesquisas eleitorais indicavam que o partido, sob a liderança de Sharon, deveria conquistar cerca de 42 das 120 cadeiras do parlamento Israeli (Knesset). Como a maioria é estabelecida com 61 cadeiras, sem sombra de dúvida Sharon iria liderar uma coalizão de centro-esquerda com o partido trabalhista, que deveria conseguir algo como 19 cadeiras. Outros partidos, como o religioso ortodoxo Shas ou o esquerdista Meretz, poderiam juntar-se à coalizão e dar uma maioria folgada a Sharon.
Entretanto, em meio ao processo de formação do Kadima, Sharon não havia definido a ordem dos nomes na lista, ou seja, não havia indicado quem seria o seu sucessor. No momento em que sai de cena, a sucessão em um partido sem tradição e instituições consolidadas torna-se extremamente complicada.
Tudo indica, contudo, que o partido deva indicar em breve uma nova liderança entre Ehud Olmert, Shaul Mofaz, Shimon Peres e Tzipi Livni. Logicamente, nenhum desses nomes tem carisma comparável ao de Sharon e, portanto, é provável que a legenda não ganhe tantas cadeiras na próxima eleição. Apesar disso, é muito provável que eleja o maior número de parlamentares em 28 de março, conquistando algo entre 35 e 40 cadeiras, devendo, então, indicar o próximo primeiro-ministro. Portanto, Sharon sai da cena política israelense, mas deixa o legado da criação de um forte partido de centro.
Gilberto Sarfati é mestre em relações internacionais pela Universidade Hebraica de Jerusalém e professor de Relações Internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco em São Paulo.