Ivan Schmidt
Dia desses, li uma frase magnífica do crítico literário George Steiner, mas antes de citá-la apresento uns poucos dados sobre sua biografia e importância intelectual: ele nasceu em Paris em 1929 e fez estudos superiores nas Universidades de Chicago e Harvard (EUA) e Oxford (Inglaterra). Fez parte do comitê editorial da revista Economist (1952-56) e, mais tarde, lecionou em Princeton, Stanford, Harvard e Yale, assim como nas Universidades de Cambridge e Genebra. É de dar inveja.
Vamos à frase: ?O homem é um primata que pode mentir, que pode fazer declarações ?impossíveis? e contrafactuais?. Ela consta do ensaio ?Lingüística e poética?, não sei se o mais brilhante do magnífico conjunto de ensaios que compõem o livro Extraterritorial, a literatura e a revolução da linguagem (Companhia das Letras, SP, 1990), que tive a sorte de fisgar – a preço de banana – numa das bancas da feira de livros realizada há duas semanas na Praça Osório.
A síntese admirável de Steiner quanto à idiossincrasia do ser humano, especialmente o que se dedica à política (o acréscimo é meu), faz-nos compreender de modo cabal as atitudes, mesmo as mais inconvenientes e estapafúrdias, de que são capazes determinados homens públicos. A bem da verdade, é preciso reconhecer que a categoria de homens públicos a qual me refiro não se notabiliza pela utilização da política como uma ciência consagrada a aplainar discordâncias e aproximar contrários, mas como a arte da escamoteação, do engodo e do ilusionismo.
E o fazem com extremo desvelo, embora contribuam para retardar ainda mais a conquista do aperfeiçoamento democrático, de que tanto falam, inclusive, muitos desses tartufos travestidos de políticos.
Na seqüência de seus apontamentos sobre as múltiplas formas do emprego da linguagem, tanto para o bem quanto para o mal, Steiner lembrou a declamação privada de um poema sobre Stalin, escrito por Osip Mandelstam, no dia 30 de maio de 1934. A ousadia valeu ao poeta a deportação e a morte. O poema tem 14 linhas e foi adaptado por Robert Lowell:
Vivemos. Não estamos certos se nossa terra está sob nós.
Dez pés adiante, ninguém nos ouve.
Mas em qualquer lugar em que haja mesmo uma meia conversa, Lembramos o montanhês do Kremlin.
Seus dedos grossos são gordos como vermes, Suas palavras confiáveis como pesos de dez libras Suas botas brilham, Seu bigode de barata está rindo.
Em torno dele, o grande, seus conselheiros de pescoço fino e idiotas.
Ele brinca com eles. Está feliz com homens pela metade em torno dele.
Eles fazem sons animais comoventes e engraçados.
Só ele fala russo.
Uma após outra, suas frases batem como ferraduras: ele as golpeia. Ele sempre acerta o cravo, os testículos, Depois de cada morte, ele é como um membro da tribo georgiana, Pondo uma framboesa na boca.
Steiner tira lições valiosas do poema de Mandelstam, mesmo se desculpando da inépcia para uma leitura mais profunda devido a seu precário conhecimento do idioma russo. O que impressiona de verdade é identificar em minúcias o realismo da composição poética no desabusado comportamento de pseudocondoreiros que se arrogam o dom da inerrância e da onipotência.
Para o crítico atento tal insensatez sempre chega ao paroxismo, porquanto ?na ditadura final, apenas um homem pode usar os instrumentos da linguagem?, ao passo que os demais se limitam a emitir ?sons animais engraçados?, ou seja, a reação pavloviana de que são capazes os incompetentes treinados para aplaudir.
Ivan Schmidt é jornalista.