O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está ingressando no penúltimo ano dos oito que perfazem seus dois mandatos na presidência da República. Diante do pálido avanço obtido no campo das reformas institucionais, aliás, uma tarefa que o presidente havia delegado aos partidos, sobretudo, aos onze que formam a base política do governo, a inteligência a serviço do Palácio do Planalto decidiu ter chegado o momento de retomar o patrocínio das iniciativas concretas para o encaminhamento das reformas, centralizando na pessoa do presidente a determinação de dotar ao arcabouço jurídico do País o ansiado conjunto de melhorias.
Às voltas com os sobressaltos causados pelas eleições dos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, no próximo dia 2 de fevereiro, o governo não se conforma de ter perdido o controle de uma situação que aparentava transcorrer de acordo com o figurino traçado por seus principais operadores, dentre os quais se destaca o ministro José Múcio Monteiro, encarregado da articulação política do governo e sua base partidária. Acontece que os ventos brandos foram substituídos por uma súbita tormenta suscitada pela decisão extemporânea do PMDB, de além da presidência da Câmara reivindicar igualmente a presidência do Senado, com o apoio maciço da bancada à candidatura do senador Garibaldi Alves (RN), atualmente concluindo o mandato renunciado pelo colega Renan Calheiros (AL).
O problema se agravou porquanto o senador Tião Viana (PT-AC) já havia anunciado o desejo de disputar o cargo, invocando o princípio do equilíbrio de forças entre os dois partidos mais influentes da base, que assim repartiriam harmoniosamente entre si o comando das mesas do Senado e da Câmara, onde a tendência majoritária é marchar com a candidatura do deputado Michel Temer (PMDB-SP). Temer, entretanto, também não disputa isolado, já que os deputados Osmar Serraglio (PMDB-PR), Aldo Rebelo (PCdoB-SP) e Ciro Nogueira (PP-PI), também se lançaram como candidatos avulsos, em posição de independência e hipotético desacordo com a decisão abençoada pelas lideranças da base e da cúpula governista.
No Senado, a fim de neutralizar a gesta do senador Garibaldi Alves, uma certa engenharia política alinhada ao Planalto começou dar tratos à bola no sentido de encontrar uma brecha e, incontinenti, o nome do senador José Sarney (PMDB-AP) começou a ser ventilado como solução perfeita para se evitar o alargamento do conflito na base do lulo-governo. Para acomodar o petista Tião Viana, visivelmente agastado com o murcho entusiasmo do Planalto à sua proposta de presidir o Senado, estaria assegurado um espaço na Esplanada dos Ministérios, provavelmente em substituição ao atual ministro da Saúde, José Gomes Temporão, sobre quem ainda não foi possível descobrir se faz parte da cota do PMDB, ou se representa uma escolha pessoal do presidente da República. É por essas e outras que se proclama: seja qual for o resultado das eleições para a direção de ambas as casas do Congresso, o governo não ficará bem na foto.
Nesse clima de ressentimentos possíveis e imagináveis, o governo pretende juntar suas forças para aprofundar, para dizer o mínimo, as discussões sobre o marco regulatório para a exploração das reservas de petróleo e gás do pré-sal, além das reformas tributária e política. Advertido pela percepção antecipada das enormes dificuldades que enfrentará no Congresso, caso insista na aprovação das medidas, o governo entende que o caminho mais rentável é associar ao presidente Lula, antes do término do segundo mandato, que também será fortemente marcado pelo escopo de eleger o sucessor, a prerrogativa de ser o proponente da reforma política.
Bandeira histórica do PT, a tese de reforma política perdeu o embalo com o escândalo do mensalão. Em fevereiro, Lula mandará ao Congresso a proposta elaborada pelo ministro Tarso Genro, da Justiça. Tudo indica, porém, que matéria desse quilate somente será aprovada depois de 2010.