Impacto da desmoralização

Depois de tantos anos de efêmero avanço e muito retrocesso num panorama político-partidário aviltado em dois ciclos históricos distintos, mas com o vezo do arbítrio a demarcar ligações intrínsecas entre um e outro – o Estado Novo e a ditadura militar – apesar da redemocratização e da chegada ao poder das duas vertentes caboclas da social-democracia (PSDB e PT), não se poderia afirmar sem o risco de cometer aleivosia que o País tenha experimentado evolução satisfatória em termos da natureza mesma do sistema partidário.

Desde o bipartidarismo imposto em 1965 pelo Ato Institucional n.º 2 e, anos depois com a liberação dos novos partidos o quadro teve raras modificações, a não ser pelo curto período de afirmação na consciência dos cidadãos dos partidos comprometidos com a restauração das eleições diretas para a Presidência da República. Outro marco foi a campanha vitoriosa de Lula em 2002, grata compensação aos escassos registros dignos de figurar com relevância na representatividade orgânica dos partidos na vida nacional. Todavia, como nem tudo que reluz é ouro, o PT se ofereceu aos estudiosos como um fértil exemplo de como podem fracassar da forma mais patética, mesmo os grêmios ideológicos imantados pelo socialismo democrático e pela ética comportamental acima de quaisquer suspeitas.

É obrigatório citar também como fruto tardio do longo processo de subversão dos valores políticos, o lamentável espetáculo encenado pelo PMDB, mero simulacro do que significou para a democracia na extraordinária cruzada das Diretas Já, até render-se aos candentes apelos da Frente Democrática Liberal que tornou possível a eleição de Tancredo Neves e o aniquilamento da Arena. Esta ressuscitou, porém, nas fileiras do Partido Democrático Social (PDS) e logo do Partido da Frente Liberal (PFL), para comportar o remanescente do conservadorismo de direita estilizado na atuação de Antonio Carlos Magalhães, Marco Maciel, Jorge Bornhausen e Cláudio Lembo, para citar os epígonos mais expressivos. Foi esse o sedimento que originou o Partido Progressista (PP), obra-prima da desenvoltura política de Paulo Maluf e atualmente berço de personalidades com entranhada vocação para a vida pública, como o deputado federal José Janene.

Pois o PMDB não teve trajetória diferente até ser dominado por políticos diplomados no oportunismo fisiológico como os senadores José Sarney, Renan Calheiros, Ney Suassuna e o deputado federal Jader Barbalho, que tangendo figuras menores igualmente seduzidas pelo assédio do governo – qualquer governo – criaram poderoso substrato logo apelidado de ?ala governista? para se opor com resistência canina à tese da candidatura própria à Presidência. A solércia dos operadores da ala governista chegou ao ponto de esnobar o oferecimento da vice-presidência na chapa de Lula, sob o argumento de liberar o partido para composições estaduais factíveis de eleger pelo menos 15 governadores. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) vem de implodir a informalidade preconizada pela pajelança peemedebista, ao estabelecer que é proibido ao partido que não disputar a eleição nacional fazer alianças estaduais com os que tiverem ou apoiarem candidato à Presidência. Esperteza demais às vezes atrapalha e já se fala no retorno da candidatura própria.

No distante maio de 1979, o senador Paulo Brossard, então líder do MDB, fez alguns discursos sobre a tentativa do governo Geisel extinguir os partidos, visando ferir de morte a oposição que crescia a olhos vistos. A Arena era presidida pelo senador José Sarney, filho dileto do golpe de 64, pregador entusiasta da extinção. Há exatos 27 anos Brossard teve a antevisão do que acabaria acontecendo, além de adivinhar minúcias do futuro político de Sarney ao sublinhar que a frustrada implosão do MDB ?consiste em apagar tudo outra vez, para outra vez refazer com os mesmos materiais; e, enquanto se faz e desfaz, ou desfaz para depois voltar a fazer a mesma coisa com os mesmos meios e as mesmas pessoas, o grupo bendito continue e possa continuar a viver no calor do governo?. Brossard só não teve a intuição da tática migração de Sarney para o partido que tencionava mandar para o espaço…

Parafraseando João Mangabeira em referência aos beneficiários das benesses governamentais, o tribuno que fazia tremer o Planalto a cada discurso enxergou muitos anos à frente a sina governista do vice-rei do Maranhão: ?Há pessoas que vendem a alma ao diabo e com ele assentam residir no inferno. No pacto quiçá se oculte um pensamento subjacente: eles podem duvidar da existência da alma, do diabo e do inferno, mas têm crença inabalável no governo, tenha ele o nome que tiver. Podem ser até maltratados, sugados, chupados, virar bagaço. Pouco importa, se a eles é reservado lugar ou papel no governo. Ou nas vizinhanças do governo. Ainda que seja para os serviços menos asseados?.

A praga do extermínio que Sarney rogou contra o MDB nos anos de chumbo, chegou agora com o impacto da desmoralização.

Ivan Schmidt é jornalista

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