Ivan Schmidt

continua após a publicidade

Um dos mais longos pontificados da história moderna da Igreja chega ao fim com a morte do papa João Paulo II, o intimorato bispo polonês Karol Jozef  Wojtyla, erigido pela força do carisma e espiritualidade na mais importante personalidade política do século XX. Aliás, a essa conclusão chegaram os jornalistas Carl Bernstein e Marco Politi, no caudaloso painel que juntos escreveram sobre as atividades de verdadeiro chefe de Estado, exercidas pelo falecido papa.

Há muitos anos, João Paulo II e o presidente norte-americano Ronald Reagan estavam cumprindo extensos roteiros pelo exterior. Numa dessas coincidências em que ninguém acredita – embora existam – os aviões de ambas as personalidades teriam de fazer escala técnica em algum ponto remoto do Alaska. E como nada mais tivessem a fazer senão esperar o reabastecimento e a checagem mecânica das aeronaves, João Paulo e Reagan planejaram uma conversa a sós.

Até hoje, o que se conversou na oportunidade ficou entre os dois e jamais será conhecido. Alguns comentaristas escreveram que, dentre os assuntos abordados, bem poderia ter estado a idéia da internacionalização da cidade de Jerusalém, à época, um tema candente. Tantos anos depois e a julgar pela série de acontecimentos, nos quais o papa e o presidente dos Estados Unidos tiveram papéis relevantes, é possível imaginar que grande parte daquela conversa numa base norte-americana, na vastidão das geleiras do Pólo Norte, tenha girado em torno da bem-sucedida operação de desmantelamento do regime soviético.

O padre Wojtyla tinha sofrido na carne, ao lado de seus patrícios, primeiro o horror da dominação nazista na Europa, mormente na Polônia, um dos países violentamente barbarizados pelas tropas de Hitler. Não bastasse isso, depois vieram os comunistas e o país foi asfixiado pela Cortina de Ferro. A Igreja resistiu como pôde, o catolicismo tem presença fortíssima entre poloneses há mais de mil anos, e Wojtyla sempre esteve à frente dos movimentos que reivindicavam alguma abertura – a mais tênue – para a marcha histórica da catolicidade nativa.

continua após a publicidade

Na verdade, pode-se afirmar que uma das razões que, mais tarde, culminaram na eleição do cardeal de Cracóvia para timoneiro da barca de Pedro, se deveu à ação pronta e decidida em defesa duma parcela importante da Igreja amordaçada pelo regime materialista de Moscou. Fatos condicionantes da história contemporânea poderiam, não apenas desmentir, mas até reduzir a atuação hiperbólica creditada a João Paulo, nessa e noutras empreitadas, embora ninguém diminua seu destemor contra a ideologia classificada pela criptológica ciência das relações públicas e do marketing político, também a serviço da Igreja, como ?intrinsecamente má?.

João Paulo foi homem de seu tempo, comunicador nato, pontífice que levou ao extremo a provável compreensão pessoal do ?aggiornamento? proposto pelo papa João XXIII, como um repto a peregrinar pelos rincões da Terra a fim de tornar audível a palavra da Santa Sé e recolher a contraprova de desafiantes realidades políticas, econômicas e sociais vividas pela Igreja, além de verificar in loco os profundos traumas causados sobre o manto da fé católica.

continua após a publicidade

O papa reverenciado em seu leito de morte por milhões de fiéis de todos os quadrantes também é definido como exacerbado conservador. Ele se opôs ao avanço da Teologia da Libertação, à ordenação de mulheres, à liberação das normas ultramontanas sobre aborto e uso de preservativos. Os mais duros não o perdoam pelo reconhecimento dado à Opus Dei, transformada em prelazia, cuja obediência e satisfações são prestadas unicamente ao papa. O último lance diz respeito a questões postas pela biotecnologia e bioética, enfim, a imposição da abertura do diálogo salutar e construtivo com a ciência.

Tarefa espinhosa e inadiável, todavia, deixada pelo alquebrado e sofrido João Paulo ao sucessor, cujo nome será conhecido em breve pela fumaça branca e o repicar dos sinos da Basílica de São Pedro.

Ivan Schmidt é jornalista.