Idade da pedra

Começou ontem na cidade italiana de L’Áquila a cúpula do G8, formado pelas sete economias mais industrializadas do planeta mais a Rússia. O item em destaque na agenda continua sendo a intenção de aplicar todas as decisões tomadas no âmbito do grupo com vistas à recuperação e o crescimento sustentável da economia mundial. A disposição antecipada pelos governantes do bloco é anunciar a criação de um sistema de monitoramento das medidas destinadas a ajudar a economia a reencontrar o ritmo, a partir de 2010.

A medida se impõe até mesmo pela realidade vivida atualmente pelo bloco dos países mais ricos, quanto às dificuldades para impor sua desgastada influência econômica sobre os demais países do mundo. Outro dia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que dentre as soluções mais prováveis, a seu juízo, deveria ser discutida a dissolução do G8 e a entrega de suas atribuições a um grupo também integrado por economias em desenvolvimento, os chamados países emergentes. Não está descartada a ideia de um comunicado conjunto com os países do G5 (Brasil, China, Índia, México e África do Sul), com o objetivo de explicitar o funcionamento do sistema de acompanhamento dos resultados das medidas econômicas.

No final do encontro efetuado em Genebra (Suíça) o G77, grupo dos 130 países em desenvolvimento mais a China, distribuiu comunicado considerado bastante duro pelos analistas, no qual foram enumeradas as providências ainda não tomadas para tirar o mundo da crise financeira. O Brasil faz parte desse grupo e subscreve a necessidade de respostas urgentes para combater os efeitos da crise, além de facilitar a adoção de reformas estruturais, que no longo prazo contribuirão para evitar o surgimento de novos focos de atropelos econômicos.

Um dos pontos enfocados pelo G77 é a falta de crédito para as economias em desenvolvimento, estimada em US$ 1 trilhão somente nesse resto de ano. O comunicado assinala que mesmo diante da recuperação da economia mundial, que deverá ser lenta, os países em desenvolvimento enfrentarão nos próximos anos muitos obstáculos para honrar os compromissos assumidos no mercado exterior.

Como se percebe, o cenário é conturbado e requer ação concentrada das economias mais ricas do planeta, no sentido de ajudar as mais fracas. Sinais contrários, no entanto, continuam sendo emitidos pela Organização Mundial do Comércio (OMC), porquanto dirigentes dos principais organismos multilaterais chamam a atenção para a sucessão de barreiras comerciais, financeiras e ambientais que pendem sobre as economias emergentes. Por esse motivo e, com inteira justiça, o G8 tem insistido na conclusão da Rodada Doha de liberalização do comércio internacional.

Luiz Alberto Moreno, presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), aproveitou a reunião do G77 para enfatizar que as exportações procedentes da América Latina estão sofrendo com a forte retração da demanda global, além do acúmulo de problemas na infraestrutura e nas instituições. A lentidão do processo alfandegário na América Latina faz aumentar entre 5% e 15% os custos de transporte das exportações. O custo médio do frete marítimo de produtos embarcados em portos latino-americanos com destino aos Estados Unidos, por exemplo, é quase 50% maior que a tarifa praticada para produtos iguais originários da Europa.

A propósito, o relatório do Fórum Econômico Mundial confere ao Brasil a 87.ª posição entre 121 países em relação à capacidade de inserção no comércio internacional. O estudo apresenta um balanço atualizado das medidas de apoio e facilitação do fluxo internacional de mercadorias por parte das instituições políticas ou prestadoras de serviços no importante segmento das exportações. Sem a menor dúvida, a péssima situação brasileira é um indicativo claro da tarefa de extirpar gargalos alfandegários que resultam em atrasos e enormes prejuízos financeiros, além de esdrúxulas medidas de protecionismo comercial, que algumas vezes representam um retorno à idade da pedra.

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