Clemente Ivo Juliatto
A partir do início da década de 1990, a globalização vem transformando as sociedades com intensidade e velocidade crescente nos cinco continentes. É um cenário que vai continuar se consolidando por mais algum tempo. No Brasil, as mudanças sociais também resultam da combinação da estabilidade econômica e política, da abertura externa e da reestruturação do setor produtivo. Mesmo padecendo de restrições e estrangulamentos estruturais e conjunturais, o Brasil dispõe de massa crítica, recursos naturais e potencialidades humanas que viabilizam o seu desenvolvimento em bases sustentadas.
Em seu livro A Terceira Onda, Alvin Toffler discorre sobre cinco grandes ciclos da evolução da humanidade. Chama-os de ondas. A primeira, a onda agrícola, que atinge até o século XIX, tem seu diferencial de poder na posse de terras. A segunda, a onda industrial, do século XIX até as décadas de 1950 e 1960, tem o seu diferencial no capital. A terceira onda, consolidada com o desenvolvimento da informática, desloca o eixo do poder para a inteligência, comunicação e informação. A onda da produtividade, que coexiste com a anterior, tem seu diferencial na excelência pela qualidade. A quinta onda, da imaginação e da intuição, começou a dar seus primeiros sinais no final do século XX e início do século XXI.
A par de estarmos adentrando essa nova era, presencia-se bastante heterogeneidade nos continentes e no seio dos países. Há muitas chagas sociais decorrentes das desigualdades, injustiça, corrupção, discriminação e marginalização. Contexto universal uniforme é, seguramente, o maior sonho da humanidade. Enquanto não alcançar, ninguém pode sonhar dormindo. Este sonho, uma realidade em potencial, assume características de desafio. Os chineses têm um provérbio cheio de sabedoria: ?Não importa o tamanho da montanha, ela não consegue esconder o sol?.
Nos encontros e palestras para jovens, mostro a eles que é natural que as transformações na estrutura do trabalho criem novas ocupações e, ao mesmo tempo, eliminem outras. Será cada vez mais constante a perda de espaço dos contratos de trabalho formais e estáveis, e emergência de formas alternativas, como empregos temporários ou em tempo parcial. Também por causa desses condicionantes, a educação superior está sendo continuamente repensada, sobretudo no que se refere às inovações pedagógicas e tecnológicas. É preciso educar a juventude para sobreviver e crescer nesse novo contexto.
Ainda em relação às mudanças no ambiente cultural e profissional, está havendo aumento da qualificação média da força de trabalho, acompanhada por novo processo de polarização das qualificações intra e extramercado de trabalho. Em paralelo, verifica-se crescimento da complexidade e do conteúdo intelectual em seus diversos níveis: gerencial, administrativo, técnico e operacional, e diversificação das formas e dos modos de trabalho: virtual, em equipes multifuncionais e empresa individual.
Portanto, a mudança tornou-se processo permanente, não mais evento isolado. Num mundo de competições acirradas, vão sobreviver as organizações que estiveram mais bem adaptadas ao novo paradigma de desenvolvimento universal. Vale, aqui, a observação do saudoso reitor emérito da PUCPR, professor Euro Brandão: ?Há que se insistir na prevalência da pessoa sobre a máquina e da ética sobre a técnica. De uma coisa temos absoluta certeza: avanço tecnológico e científico sem avanço social não provoca desenvolvimento, mas crescimento da exclusão e do mal-estar entre as pessoas?.
Clemente Ivo Juliatto é reitor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná e integrante da Academia Paranaense de Letras.