José Luiz Ames

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A teoria política ensina que as eleições representam um momento privilegiado na vida da coletividade: é o instante em que o cidadão se reveste da função de juiz e decide premiar alguns com o direito de representá-lo e pune a outros negando-lhes este direito. Desde o ponto estritamente teórico, as eleições são o evento mais importante dos regimes democráticos. É a hora em que os candidatos ouvem o veredicto do juiz, que pode reconduzi-los ao posto ou devolvê-los à vida de cidadãos comuns.

Para a teoria política, o que parece muitas vezes uma conduta falha dos representantes tem dia e hora marcados para ser julgado. Não haveria, portanto, razão para a indignação contra os desvios de conduta, a inércia, o distanciamento das necessidades dos eleitores. O voto seria a arma fulminante contra o ?mau político?, cassando-lhe o direito de continuar no papel de representante. Ao mesmo tempo em que eliminaria da cena política os ?maus políticos?, o eleitor escolheria novos representantes mais dignos do papel. Esse ritual, repetido periodicamente, garantiria a saúde do regime democrático ao eliminar os maus e reconduzir os bons, renovando o corpo político como se fosse uma transfusão de sangue em um organismo vivo.

A teoria parece um otimismo exagerado quando observamos que personalidades que protagonizaram sucessivos atos de conduta inadequada do ponto de vista ético serem ?perdoadas? pelo eleitor. O instituto da reeleição, em todas as esferas e estruturas do poder (Legislativo e Executivo) mostra-se um violento atentado à democracia. A reeleição possibilita a existência de cidadãos que se profissionalizam na arte de eleger-se.

A democracia, sempre é bom recordar, nasceu entre os gregos cerca de dois mil e quinhentos anos atrás. Significava nas suas origens o exercício do poder igual de cada um sobre cada um. O direito à reeleição nega a igualdade das condições de representação. Há uma vantagem inicial por parte daquele que se candidata à reeleição, o que sabota o princípio basilar da igualdade democrática.

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A eleição não consegue ser julgamento. O voto não julga. Ele não é um ato refletido e racional que domina todos os elementos da ação. Ele se orienta pela imagem. O eleitor é incapaz de atravessar a imagem projetada pelo candidato para penetrar no segredo das consciências e desvelá-las. Cada um escolhe a partir do que ?parece?, pois aquilo que ?é? resta inacessível.

A impossibilidade de julgar torna falsas as afirmativas, repetidas à exaustão pelas campanhas de ?conscientização? levadas a efeito pela Justiça Eleitoral, de que nosso voto ?é tão bom quanto o Brasil?; ou que o ?eleitor é o patrão?. Levados a sério, o que absolutamente devem ser, tais slogans associariam o eleitor ao crime cometido pelos políticos corruptos. Deveríamos todos ser indiciados por ?formação de quadrilha? quando algum dos eleitos fosse indiciado em crime de qualquer natureza!

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Eleição, dentro das atuais regras, é apenas um momento de escolha. É enganar as pessoas afirmar que os políticos que serão eleitos serão melhores do que aqueles que hoje estão nos postos. Enquanto não for devolvido ao cidadão o direito de revogar o mandato do representante que viola sua confiança, e isso não apenas por falha ética, permanecerá a percepção de impunidade, não só em relação às estruturas judiciais, mas igualmente quanto ao julgamento eleitoral.

José Luiz Ames é doutor em Filosofia e professor da Unioeste/Campus de Toledo. E-mail: profuni2000@yahoo.com.br.