Ayrton Baptista

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Enfim, chegamos lá. O Paraná consegue a medalha de ouro dentre os estados brasileiros por ser o mais avançado em termos de compra de votos. Demos uma lavada, os corruptores de voto se concentraram no Estado, e isso nos levou ao topo. Nada de Nordeste, com seus índices de pobreza. É por aqui mesmo, no Sul maravilha, no Estado campeão da produção agrícola, exemplo para muitos milhões de brasileiros que aqui chegam como se Eldorado sem fim. Agora, então, é engolir em seco.

A história foi contada pela mídia com espanto, mas contada com todas as letras. Por ocasião da campanha eleitoral de 2006, oito por cento dos brasileiros receberam ofertas de remuneração em dinheiro ou outro bem para dar seu voto a determinados candidatos. O Paraná, não satisfeito, foi logo atingindo 22 por cento de seu eleitorado, assim como se em cada quatro eleitores um recebesse uma proposta.

A ONG Transparência Brasil se encarregou de contratar o Ibope e os números são assustadores. A timidez paranaense foi deixada de lado, pois cerca de 1,3 milhão de nossos irmãos disseram ter sido abordados de uma forma ou de outra para vender o voto. E ponto final, ninguém tasca. Foram-se os nossos orgulhos, já podemos abaixar a crista. Somos corruptíveis. Em massa.

Claro, não é bem assim. Sempre ouvimos dizer que onde há corruptíveis há também corruptores. Mais acentuadamente depois do mensalão, dos sanguessugas, das CPIs federais e estaduais que não chegam a nenhuma conclusão, que acabam em pizza. A Lei de Gerson, finalmente, foi consagrada no Paraná. Coitado do meia-esquerda que tantas glórias deu pelo seu futebol magistral ao povo brasileiro. Quis na propaganda levar vantagem em tudo, ficou marcado.

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Pois não é bem assim. Venda de voto sempre ocorreu, desde os primórdios da eleição democrática, mesmo que privilegiando só algumas classes. Afinal, não é só no Nordeste do País que encontramos farta distribuição de benesses. Ficou a fama da região pobre, não poderia de forma alguma o Nordeste aceitar ser pobre e vendilhão. A corrupção está em toda parte. Os corruptores estão encontrando cada vez mais terras férteis. E não só em termos eleitorais, não só para se eleger ou eleger parentes e afins.

Vamos convir, depois dos escândalos mostrados fartamente nos dois últimos anos, a partir de um tal Martinho que recebia 3 mil reais numa repartição dos Correios, a corrupção banalizou-se. E foi atingir em cheio denunciantes e denunciados, farinha do mesmo saco, questão de oportunidade.

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Ora, então, se lá em cima os poderosos podem, como fica o remediado por aqui e alhures, prenho de necessidades, muitas vezes sem pão e leite para o dia-a-dia da filharada? Votar com voto pago, por que não? Não se fazem coisas piores com terno e gravata, nas barbas de quem pode punir?

Fica mal a classe política do Paraná. Sim, fica, mas não sozinha, pois os corruptores estão situados, como se diz, do Oiapoque ao Chuí. O coronelismo há muito tempo não é ficção e muito menos se prende a supostas regiões mais pobres do País.

Uma reforma política se faz urgente. Uma urgência urgentíssima. Nos escaninhos do Congresso Nacional, procurando-se, vamos encontrar projetos apontando as mais diferentes formas de se mudar para melhor o sistema político, de representação popular, de eleição mais democrática, de igualdade de oportunidades entre os candidatos.

Um novo Congresso já está fazendo reuniões. Mesmo que ainda com sobras de mensaleiros e estreantes não menos aspirantes a tal qualificação, mesmo assim, poderemos evitar que os números, reais ou não, proliferem no Paraná e por todo o País. Se não somos os melhores, não fiquemos com o título de os piores. Há na própria bancada paranaense gente capaz e honesta para bancar uma luta dignificante. Em todos os partidos, na Câmara e no Senado. Se puderem se unir, então, estaria dada a resposta. Mãos à obra, depois do Carnaval, depois da Páscoa, enfim, mesmo que depois do próximo recesso. Não dá é para fingir que não deu, que de nada sabe, que o que vem de baixo não me atinge. Estamos todos envergonhados, brasileiramente envergonhados.

Ayrton Baptista é jornalista em Curitiba.