Visando à aprovação do pacote de emergência de US$ 850 bilhões, os senadores acrescentaram US$ 100 bilhões à proposta inicial rejeitada pela Câmara dos Representantes. Em segunda votação, os representantes concordaram com a ajuda financeira do governo norte-americano para conter o ímpeto da maré montante que continua apavorando o mercado com uma recessão sem precedentes.
A mudança de atitude dos deputados federais, que aprovaram o plano por 263 votos a favor e 171 contrários, permitiu à Casa Branca formular a sistemática do ataque imediato e contundente à crise dos bancos de investimentos, cujas conseqüências corrosivas tomaram o rumo dos mercados da Europa, Ási
a e América Latina.
Para a maioria dos componentes do Congresso dos Estados Unidos, sendo eles republicanos ou democratas, não houve alternativa mais adequada senão aprovar a ajuda emergencial destinada a sustar o risco de colapso financeiro iminente, que apesar da intervenção agora oficializada do governo Bush, continua a espalhar o pânico nas bolsas de valores ao redor do mundo.
A base do plano de emergência consistiu na licença conferida ao Tesouro norte-americano para adquirir ativos deteriorados dos bancos no valor de US$ 700 bilhões, quando na verdade o rombo financeiro das principais instituições bancárias do país, segundo os analistas do mercado, supere a inacreditável cifra de US$ 3 trilhões. A preocupação essencial do governo foi erradicar a probabilidade da falência dos bancos mais representativos do mercado dos Estados Unidos, assim como restabelecer a normalidade do fluxo de crédito aos tomadores habituais.
Teóricos de várias escolas do pensamento econômico, entretanto, foram unânimes na avaliação de que a ajuda financeira está muito aquém da verdadeira abrangência de uma crise que exige tratamento mais drástico.
Em meio à preocupação que se disseminou pelo mundo suplantando fronteiras com a celeridade instantânea dos meios eletrônicos, o contexto eleitoral vivido pelo Brasil acabou fornecendo um novo ingrediente, ademais dos ganhos e perdas revelados pela apuração dos votos, para a ainda fragmentada e difícil interlocução entre governo e oposição. O governo e seu principal mentor, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, afirmam que tudo vai bem, mas a oposição insiste em dizer que “o presidente tenta enganar o povo” ao descrever a realidade econômica brasileira. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) afirma que seu partido vai cobrar do governo a adoção de medidas enérgicas para o enfrentamento da crise e, que tais medidas sejam apresentadas de modo transparente à sociedade.
As bancadas federais do PSDB e DEM, partidos que lideram o bloco de oposição ao governo, reclamam reação mais propositiva, embora tenham garantido a intenção de votar a favor da proposta encaminhada ao Congresso, com a finalidade de prestar ajuda aos bancos médios e pequenos e aos exportadores. O governo supôs que os grandes bancos adquirissem as carteiras de crédito dos menores, mas como não houve movimentação nesse sentido, tomou a iniciativa de propor mediante medida provisória os instrumentos de apoio aos bancos de menor porte e ao setor de exportação.
O senador Garibaldi Alves (PMDB-RN), presidente do Senado, inimigo declarado das medidas provisórias (MPs) que trancam a pauta de votações no Congresso, lembrou que o cenário é diferente dos demais: “É uma hora em que o Congresso deve ajudar nas soluções. Esta é uma hora que não permite nem discussões estéreis, nem vacilações. E é uma hora em que, inclusive, podemos admitir as MPs, que já se tornam inadmissíveis dentro do Congresso”.
Para melhor esclarecer os congressistas do alcance da crise financeira, o PPS já pediu a convocação do ministro Guido Mantega, e do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. É preciso permitir que a cooperação substitua o confronto.