Há o que comemorar?

Há sim o que comemorar. Entretanto, ainda que haja motivos, mais que comemorações, precisamos aproveitar este dia para reflexão, diálogo e contabilização de ganhos, não só os garantidos, mas os que ainda virão.

É claro que avançamos. Conseguimos, com nossa sistemática intervenção, diminuir as diferenças salariais entre homens e mulheres; ampliar nossa presença no ensino médio e fundamental; ocupar novos espaços nas várias áreas da sociedade; ter uma Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, comandada pela ministra Nilcéa Freire; construir um Plano Nacional de Política para Mulheres, com a participação de 120 mil mulheres de todo o Brasil; entre tantas outras conquistas.

Entretanto, ainda cabe perguntar: por que somos tão poucas nas esferas de poder e nos postos de decisão? Culpa dos homens que dificultam nossa participação? Não. Culpa das mulheres que não se colocam e são tímidas demais? Também não!

Com certeza, culpa de um modelo machista de sociedade que ainda segrega as mulheres para o mundo do privado, da subalternidade e do silêncio. Modelo crivado de estereótipos que não serve mais, nem para os homens, nem para as mulheres. A ordem atual é mudar. Mudar postura e comportamento, numa tarefa que é de todos nós: cidadãos, cidadãs e poder público.

No mundo do trabalho, é inaceitável que as mulheres continuem ganhando salários diferentes para iguais tarefas. Certamente, já foi pior, mas, ainda hoje, nada é capaz de justificar esta desigualdade. No Brasil, apesar dos avanços, as mulheres ainda ganham até 30% do salário dos homens. No caso das trabalhadoras rurais e das mulheres negras, a situação é ainda pior. Às mulheres do campo faltam incentivos, acesso ao crédito e à terra, a condições para mantê-la, além de vários outros problemas ligados à documentação, praticamente inviabilizando suas aposentadorias.

Já com as mulheres negras, a discriminação é ainda maior. A elas são destinadas as tarefas de menor prestígio e remuneração, chegando a ganhar até metade do salário de uma mulher branca e até quatro vezes menos que o salário de um homem branco.

Em relação à saúde, podemos dizer que houve avanço, mas, ainda hoje, no Brasil, duas mil mulheres morrem por ano por complicações oriundas de gravidez, parto e pós-parto, tragédias evitáveis se, de fato, fossem garantidos à mulher, conforme preconizam as leis, saúde integral, direitos reprodutivos e direitos sexuais.

Ainda vai longe nossa luta por uma educação inclusiva e não sexista. Avançamos, mas em nosso País as escolas ainda reproduzem a ideologia machista, fortalecendo os estereótipos e preconceitos em relação aos negros, portadores de necessidades especiais, pobres, homossexuais e também às mulheres. Se quisermos construir uma sociedade de fato tolerante, fraterna e feliz, faz-se necessário, com urgência, que eliminemos esse ranço cultural.

Cabe às mulheres assimilarem definitivamente que fazemos parte da sociedade como agentes capazes e responsáveis em ajudar a melhorá-la. Somos mais da metade da população, mães de outra metade, mais da metade de eleitores, 41% da População Economicamente Ativa, uma em cada quatro famílias no Brasil é chefiada por mulher. Na comunidade, estamos sempre na linha de frente na defesa de nossos direitos e de nossos filhos, reivindicando vaga na escola, na creche, bom atendimento nos postos de saúde, asfalto, segurança. Estamos nos clubes de mães, associações de moradores, grupos religiosos, conselhos, ONGs; mas, por que não estamos nas esferas de poder e nos postos de decisão? Precisamos responder a essa pergunta, alterar essa cruel matemática e contradição, e isso se dará com organização e participação.

Somos diferentes sim, mas estas diferenças não podem ser usadas contra nossos direitos de oportunidades. Enfim, que todos os outros dias também sejam nossos!

Elza Correia é presidenta do Conselho Estadual da Mulher do Paraná e deputada estadual pelo PMDB.

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