Guerra verde

Enquanto as chuvas de verão caem com abundância no litoral, verifica-se prolongada estiagem nas áreas dedicadas à produção agrícola na região Sul do País, acarretando preocupações com os índices de frustração da safra dos principais produtos, além de demandar uma série de medidas de ajuda ao setor rural prejudicado pela instabilidade climática. Os Ministérios da Fazenda, Agricultura e Desenvolvimento Agrário destacaram um grupo técnico para analisar eventuais prorrogações dos prazos dos financiamentos de custeio para projetos agropecuários, nos municípios declarados em situação de emergência ou calamidade na região.

O panorama ainda passível de agravamento nos próximos dois meses, de acordo com as previsões do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), já faculta ao Ministério da Agricultura falar numa quebra superior a 5% do total até então estimado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O momento mais agudo da estiagem ocorreu exatamente quando o órgão vinculado ao Ministério da Agricultura estava concluindo o último levantamento, levando os técnicos a sustentar que a produção nacional de grãos, cereais e fibras prevista para a safra de 2008/09, deverá ficar abaixo dos 131,5 milhões de toneladas colhidos no ano agrícola de 2006/07.

Até agora o Banco Central já recebeu mais de 27,8 mil comunicados de perdas nas lavouras atingidas pela falta de chuvas, na região Sul. A situação mais dramática está ocorrendo no Paraná, que já havia protocolado 13 mil pedidos de indenização até a semana passada, seguido do Rio Grande do Sul com 11,8 mil registros de perdas potenciais, e Santa Catarina, quantitativamente o estado que menos sofreu com a estiagem nas áreas de plantio, com 2,6 mil pedidos apresentados ao Banco Central.

Na safra anterior foram anotadas 47 mil comunicações de perdas, com predominância nas lavouras de milho no Rio Grande do Sul. Na atual temporada, a Secretaria Nacional de Defesa Civil, instância subordinada à estrutura do Ministério da Integração Nacional, já havia contabilizado, até o final da primeira quinzena de janeiro, notificações de desastres climáticos em 42 municípios do Rio Grande do Sul e cinco de Santa Catarina. O governo federal ainda não vê motivos para falar em renegociação das dívidas de custeio das lavouras nos estados sulinos, mas não descarta a necessidade de uma ação efetiva na região. A renegociação das dívidas, segundo o governo, está descartada porque tais operações estão amparadas pelo seguro oficial de crédito (Proagro) ou, ainda, por apólices individuais contratadas no ato da liberação dos recursos de custeio pelos bancos. Aliado histórico dos produtores rurais, na safra atual o Banco do Brasil liberou cerca de R$ 10,7 bilhões para a produção voltada para o agronegócio, garantindo que 70% do volume financiado estão protegidos pela cobertura do seguro rural. Todavia, na avaliação de Adoniram Sanches Peraci, secretário de Agricultura Familiar, do Ministério da Agricultura, “algum tipo de amparo deverá ser tomado para aliviar as perdas localizadas”.

Não foram apenas os três estados da região Sul do País que acusaram perdas sensíveis nas lavouras de verão, tendo em vista que o fenômeno climático também se estendeu sobre extensas áreas agrícolas na Argentina, onde os efeitos da estiagem delineiam um prejuízo mais significativo que o anteriormente calculado pelos técnicos do governo e das cooperativas. Esse tipo de informe tem grande influência sobre o processo de fixação das cotações internacionais do produto. A colheita prevista de soja, por exemplo, na temporada 2008/09, era de 50 milhões de toneladas, marcando a retomada da tendência de crescimento interrompida no ciclo anterior.

Terceiro maior exportador mundial de soja, perdendo apenas para Estados Unidos e Brasil, a Argentina deverá colher esse ano em torno de 49,5 milhões de toneladas, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, sigla em inglês). Analistas locais juram que os números são irreais e que a frustração da safra é inevitável. É a guerra verde.

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