Guerra comercial

Depois de várias tentativas malsucedidas, o encontro ministerial da Rodada Doha de flexibilização do comércio internacional, promovida pela Organização Mundial do Comércio (OMC), na cidade de Genebra, vive, uma vez mais, um clima de colapso.

Observadores acostumados às instabilidades típicas de uma instância de decisões bilaterais integrada por representantes das economias industrializadas, emergentes e pobres, achavam impossível a resolução do impasse gerado pela posição intransigente dos governos da China e Índia sobre o mecanismo de importações agrícolas, negando-se a referendar o acordo encabeçado pelos Estados Unidos.

Os observadores afirmavam que a maior dificuldade passava a ser o próprio calendário eleitoral dos Estados Unidos, tendo em vista que em novembro próximo será escolhido o substituto do presidente George W. Bush, portanto, em final de mandato e com quem poucos países estão interessados em continuar negociando. Entretanto, não deixou de agitar os jornalistas encarregados de acompanhar as reuniões da Rodada Doha, a dureza das opiniões dos ministros de comércio da China e da Índia de não assinar o acordo sem a liberação das barreiras levantadas pelos países ricos às importações agropecuárias.

Diante do risco de mais uma vez os ministros regressarem para casa sem festejar o entendimento, foi colocada a alternativa de retardamento das negociações para setembro, mas aí foi a vez de novos protestos. O Brasil foi um dos países a recusar a medida protelatória, sob o argumento de que tal decisão significaria o abandono tácito das discussões. O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, enfatizou aos jornalistas que se a situação já é difícil agora, sobretudo em relação ao governo Bush que tem apenas seis meses de duração, quando faltarem apenas três meses, uma nova tentativa de acordo será praticamente inviável pela premência do tempo.

O ponto nodal das negociações da Rodada Doha consistiu na chamada salvaguarda do congelamento das importações agrícolas no auge da crise alimentar, na qual os países importadores são estimulados a reduzir suas tarifas. O ministro indiano Kamal Nath havia apresentado o esboço de acordo com a adesão prévia do Brasil, Estados Unidos, União Européia, China, Índia, Japão e Austrália, embora em seguida passasse a acusar os Estados Unidos, maior exportador mundial de produtos primários, a cancelar seu apoio ao mesmo, jogando no lixo os avanços da salvaguarda especial das importações. Como se percebe, a expressão usada por Nath foi bastante rude, conferindo uma moldura insuspeita à autêntica guerra comercial travada entre economias industrializadas e emergentes.

Poucas horas antes do anúncio do novo impasse, o ministro Celso Amorim havia declinado a posição do governo brasileiro, em concordância com o pacote agrícola e industrial apresentado por Pascal Lamy, diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, considerando-o a melhor opção para o Brasil e demais países do Mercosul. Os cálculos feitos pela assessoria de Amorim mostraram que o Brasil só teria a ganhar apoiando o acordo, pois caso continuasse a insistir no corte de subsídios, a tendência era levar o problema ao ponto do não retorno. Amorim argumentou que a posição do governo brasileiro está estribada no desejo firmado pelos setores da indústria e do agronegócio.

Contudo, a decisão do ministro Celso Amorim passou a ser vista com um claro retrocesso nas reivindicações feitas nos últimos cinco anos, significando em primeiro lugar o abandono da posição compartilhada com a Argentina, maior aliado brasileiro nas negociações de comércio internacional. O chefe da diplomacia brasileira, no entanto, negou qualquer possibilidade de menosprezo à política externa do histórico parceiro e demais aliados do G20. A questão é que os países emergentes sempre se bateram pela fixação de tarifas mais elevadas nas importações. Pipocam rumores de que o Mercosul está por um fio.

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