Guerra à corrupção

O polvo da corrupção tem multiplicadores tentáculos. Mestre Aurélio Buarque de Hollanda assim define o ato de corromper: ?Tornar podre; estragar, decompor. Perverter, depravar, viciar. Subornar, peitar, comprar?. O corrupto tem essa definição: ?Podre, estragado, infectado, depravado?. O corruptor é assim definido: ?Aquele que corrompe, que suborna, que peita, corrompedor?. Fica visto que corrupto e corruptor são faces de uma mesma moeda. São venais em escalas diferenciadas. A existência de um está umbilicalmente ligada às trompas do outro. A permissividade da sociedade é que os faz diferentes. Quando o delito é descoberto e denunciado, o corrupto é execrado. Já o corruptor, é ignorado e afastado da cena principal.

A corrupção invade as áreas públicas e em menor proporção a atividade privada. Ainda agora a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, baseada em trabalho feito pelo Banco Mundial e pela Transparência Internacional sobre a corrupção no mundo, obteve dados em relação ao Brasil que são estarrecedores. Sistematizando a pesquisa no comparativo com 12 países, encontrou-se, entre os anos de 1995 e 2005, o custo médio anual da corrupção no Brasil atingindo o valor atualizado de 10 bilhões e 700 milhões de dólares. Ao longo da década, teriam sido drenados para o patrimônio dos corruptos 107 bilhões de dólares. O valor anual corresponderia a 1,35% do PIB (Produto Interno Bruto).

Projetando, se esse montante de recursos fosse canalizado para investimentos, a média do produto ?per capita? brasileiro, ao invés dos atuais 6.735 dólares, seria de 8.274 dólares. Vale dizer, a cidadania brasileira ficaria mais rica se o índice interno de corrupção fosse menor.

Aquele trabalho da Fiep, Banco Mundial e Transparência Internacional aprofunda os efeitos do ato de corromper sobre toda a sociedade. Ao comparar os indicadores relativos ao Brasil com outros países, a liderança nacional em um comparativo com 12 nações é indiscutível. Na América Latina, o Chile é credenciado e qualificado como a nação menos corrupta.

Nesse caso, se o Brasil conseguisse diminuir o seu elevado grau de corrupção, obtendo um padrão chileno, o brasileiro, na década (1995 a 2005), teria ficado 23% mais rico. Alargando para os países desenvolvidos, admitindo que os índices de corrupção existentes neles é indiscutível, teríamos uma realidade brutal. Se o nível de corrupção existente naquelas nações fosse adotado no Brasil, o ganho seria notável para a nossa sociedade. Senão, vejamos. Em relação aos EUA, seria de 26,7%, já com a Alemanha, seria de 29,2%. Seguindo-se: Espanha, 17,6%; Irlanda, 27,3%; Austrália, 36,3%; Canadá, 38,6%; Cingapura, 40,7%, e Finlândia, 45,8%.

As causas da corrupção brasileira são múltiplas. Na esfera pública a burocracia é uma grande alimentadora. A aplicação das leis é outro componente. Na esfera privada, a filosofia do levar vantagem.

O diagnóstico do diretor do Departamento de Competitividade da Fiesp, José Ricardo Roréz Coelho, vai na direção correta: ?É muita gente ganhando pouco. O primeiro passo para o Brasil diminuir a corrupção é um choque de gestão. Diminuir o número de funcionários públicos e, em contrapartida, pagar salários a preço de mercado, é imprescindível para mudar esse quadro?.

A isso acrescente-se a necessidade de o governo adotar estratégias objetivas de combate à corrupção. Com reformas econômicas e mudanças profundas de natureza institucional. Executivo, Legislativo e Judiciário integrando-se como um só corpo no enfrentamento e declaração de guerra sem quartel contra a rede de difícil identificação onde se alojam os corruptos e corruptores. Não existe unilateralidade na corrupção. Existem sempre dois lados. Qualquer plano anticorrupção não pode ser omisso em relação ao corruptor.

Há dias, na seção ?Cartas à Redação? de importante revista semanal, lia esta indagação de um brasileiro angustiado com a corrupção: ?O que o Brasil oferece de bom a quem é honesto, cumpridor das leis, pagador de impostos??.

Hélio Duque é doutor em ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.

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