Gaudêncio Torquato
Ao denunciarem o tal ?golpismo das elites?, fabulação criada para blindar o governo Lula, livrando-o da saraivada de escândalos de corrupção, os dirigentes do PT e agregados estão comendo mosca. Não entendem o significado de elite. O engraçado é que, além de papar o inseto, apagam da história o formulador do conceito de elite, um italiano coincidentemente de sobrenome Mosca. Vejam. Gaetano Mosca, em 1896, ensinava que todas as sociedades, das primitivas às mais cultas e fortes, possuem duas classes de pessoas: a dos governantes e a dos governados. A primeira, menos numerosa, cumpre funções públicas, monopoliza o poder e goza as vantagens inerentes a ela, enquanto a segunda, bem mais numerosa, é dirigida e regulada pela primeira, de modo mais ou menos legal, arbitrário ou violento. Complementando a idéia, mais tarde, outro pensador, Vilfredo Pareto, estendeu o conceito, falando de uma classe ?superior?, que detém o poder político e o poder econômico, a que deu o nome de elite.
O maior poder de fogo na área política provém das armas do governo do PT, sob o comando de Lula. E a artilharia econômica sai da forja tocada pelo guerreiro Antônio Palocci, que mantém a estrutura econômico-financeira do País em ponto de estabilidade, com núcleos pra lá de satisfeitos. Conclusão: se há um golpe das elites, estaria sendo engendrado nas ilhas do arquipélago petista. Estaríamos às voltas, então, com o primeiro caso no mundo de um haraquiri político, para lembrar aquela forma de suicídio japonês em que os guerreiros rasgam o ventre à faca. É possível que, ao falarem de golpe para desestabilizar o ?governo popular? de Lula, PT, MST, CUT, UNE, UBES e outras letras que chafurdam sobre o termo ELITE (até a velha ABI está dentro) tenham desejado, na verdade, atirar nos opositores que começam a fazer barulho no grande circo que se forma em torno das CPIs e do Conselho de Ética da Câmara. Se for este o caso, comem mosca mais uma vez, esquecendo que o debate, o poder crítico, a liberdade de expressão e o jogo dos contrários são a vitamina da democracia.
Não era essa a artimanha ?golpista? que o PT usava antes de chegar ao poder central, com os refrãos ?fora FMI, fora FHC?? Estamos, pois, diante de algo que se chama caradurismo, falta de pejo. A desfaçatez é tão grande que até os meios de comunicação estão arrolados no golpismo. E, para arrematar a blindagem, o próprio presidente Luiz Inácio aparece, messiânico, fazendo a auto-apologia da ética e da moral, dizendo que nenhum governo, em toda a história da República, chegou a fazer nem 20% do que ele faz para combater a corrupção. Que coisa esdrúxula, hein? Aplicar percentagem ao PNBC – Produto Nacional Bruto da Corrupção – é figura nova no vocabulário da política. Medir corrupção pelo tamanho da propina também é coisa despropositada. Foi o que se viu quando Lula lembrou que ?tudo isso que estamos vivendo é por conta de um cidadão que pegou R$ 3 mil?. Deu a entender: como uma besteirinha dessas pode provocar tanto barulho? Onde estiver, o velho Ulysses deve estar brandindo de indignação. Ouviu-se dele uma vez: ?Uma pessoa 99% honesta é 100% desonesta, pois, como gravidez, não existe honestidade relativa?.
O oceano está tempestuoso, com a maré de denúncias desaguando nas proximidades de sua ilha, mas o presidente, imune às intempéries, toma o lugar de São Jorge empunhando a espada contra o dragão da maldade. Diz que nunca se investigou tanto. Porém, persiste a indagação-chave: se o presidente sabia, por que não mandou investigar a verdade sobre o mensalão após ouvir os relatos de Roberto Jefferson e do governador de Goiás, Marconi Perillo? A história se repete. A secretária que faltava já apareceu, clones de PC Farias estão sendo escancarados, malas de dinheiro foram vistas e, incrível, até duas mães-de-santo já apareceram para benzer Lula, o que faz lembrar as benzedeiras na Casa da Dinda trazidas por Collor de Alagoas. Só falta mesmo um motorista, um Eriberto, para dizer que carregou a farta propina. No meio da algaravia, um refrão estridente soa falso: ?Esse governo não rouba, nem deixa roubar?. É o guerrilheiro Dirceu matraqueando na planície da Câmara. Não dá para segurar a gargalhada. Ainda mais quando ele se faz acompanhar do coro ruidoso que esbraveja contra o ?golpe das elites?. Até parece que essa turma do gargarejo aprendeu as técnicas de perseguir moscas com a personagem de Elias Canetti, do livrinho Suplício das Moscas, que dominava a arte de caçá-las, descobrindo o ponto exato em que deveria introduzir a agulha para espetá-las sem que morressem. A mulher colecionava colares de moscas vivas e se extasiava com a celestial sensação que o roçar das desesperadas patinhas e das agitadas asinhas produziam em seu colo.
Toda vez que esbravejam contra as elites, esquecendo que dela fazem parte, os mastins do petismo, como a senhora do colar, entram em frenesi. Mas, alguma ajuda prestam. A arte de matar e engolir mosca, do gosto petista, mantém em equilíbrio a população brasileira desse inseto díptero esquizóforo, que tem cerca de 80 mil famílias e tendência para se multiplicar em ambientes infectados. Por isso mesmo, é de se prever, nos próximos meses, golpes desenfreados às moscas.
Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político.