Gol de placa na política

Pensar politicamente nunca foi coisa fácil, a não ser para uns poucos gênios que povoaram os campos da humanidade – infelizmente – com uma raridade digna de desapontada frustração. Estadistas como Washington, Jefferson, Lincoln e Roosevelt (tomo emprestada a relação do jornalista Hélio Fernandes) são apenas quatro na longa história republicana da democracia norte-americana.

No Brasil, ainda segundo Fernandes, não os tivemos absolutamente desde a proclamação da República, em 1889. Talvez esse fato venha explicar a fase inglória que o País atravessa em termos de seu arcabouço político-partidário, com a degradação da maioria dos partidos integrantes do arco que vai de um a outro extremo das ideologias conhecidas no mundo.

Com exígua exceção, os partidos são espaços referendados por códigos ultramontanos para o abrigo daqueles senhores e senhoras que atendem pela irônica alcunha de ?homens públicos?. Pouquíssimos, ainda com referência aos partidos, estão preocupados em manter bem clara diante da opinião pública qual é a faixa ideológica de seu trânsito e, com base em que argumentos persuasivos o grêmio pretende conquistar a adesão de expressivas camadas sociais.

Na verdade, é trabalho digno de Hércules adentrar o verdadeiro cipoal de idéias exprimidas pelos personagens que operam os partidos e falam pelo coletivo, e identificar a ideologia professada pelos inúmeros grupamentos da democracia brasileira desse início de século. Como se consegue filtrar do discurso feito pelos dirigentes partidários os fundamentos sobre os quais pretendem assoalhar a trajetória alardeada?

Em que arcanos misteriosos e obscuros se transformaram social-democracia, trabalhismo, socialismo e liberalismo, para citar os credos mais conhecidos? Não é possível assimilar hoje a fórmula de decomposição utilizada por legítimos ?grileiros? da política, a expressão é pertinente, na apropriação de siglas e programas que pouco ou nada representam – e tampouco têm importância – quando o alvo em mira é, digamos, a eleição pura e simples.

Daí que grande número de partidos cadastrados pela Justiça Eleitoral cumpre apenas a burocrática função de encampar com as formalidades impostas pela legislação a candidatura de seus protagonistas.

A facilidade com que tais figuras mudam de partido (pra onde vai a ideologia?), num ir e vir responsável pelo abastardamento do exercício político, melhor comparado a um habeas corpus espúrio nutrido pela fraude, é a gritante demonstração da falência irrecuperável da nossa estrutura partidária.

O atual Congresso tem dois anos para trabalhar, lembrando-se que no próximo haverá eleição para as assembléias, Câmara, Senado e presidência da República, dando-se por óbvio que o recesso branco isentará os parlamentares da obrigatoriedade de comparecer à maioria das sessões. Além disso, no caso da Câmara, o presidente Severino Cavalcanti garantiu não abrir mão do recesso de três meses, de modo que só as férias regulamentares dos deputados comerão 180 dos 730 dias do biênio.

Portanto, se alguém aguarda que o Congresso discuta e aprove a reforma política reclamada há tanto tempo pela nacionalidade, melhor tirar o pangaré da tormenta, pois dificilmente ela vai acontecer. Basta lembrar a lentidão dos congressistas ao tratar das reformas necessárias para dar modernidade, dinamismo e respeitabilidade às instituições republicanas. Algumas delas estão sendo discutidas há décadas, mas o único resultado é a exibição medíocre da prática mais comezinha do parlamento: a de empurrar com a barriga.

Um buraco negro sugou os partidos no episódio da eleição de Severino Cavalcanti à presidência da Câmara. Nenhum conseguiu salvar-se do naufrágio e a credibilidade já escassa desceu ao nível dos rodapés. A reconstrução desse duvidoso patrimônio erguido sobre falácias, para muitos deles, será uma tarefa impossível de realizar.

O saldo é lamentável e não há escapatória senão a fatalidade do repúdio dos eleitores. No final das contas, a antropofagia partidária acabou resultando num gol de placa a favor da democracia. Mas o povo tem o dever de exigir o final da partida no tempo certo. Nenhum dia a mais.

Ivan Schmidt é jornalista.

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