Godot e a social democracia

Na década de 80, a Fundação Friedrich Herbert, do SPD (Partido Social-Democrata Alemão), instalou-se no Brasil com a estruturação do ILDES (Instituto Latino-Americano de Desenvolvimento Econômico e Social). Durante anos promoveu em diversas regiões brasileiras importantes encontros com marcantes personalidades da vida econômica, acadêmica e política brasileira. Anualmente, em Angra dos Reis, no Hotel Portogalo, o seminário Brasil-Europa reunia personalidades européias, brasileiras e latino-americanas. O objetivo era buscar soluções e alternativas para a consolidação de um projeto político social-democrata no Brasil e na região do chamado cone sul. Na América Latina, encontros e debates foram realizados. Igualmente na Europa, onde importantes seminários forneciam subsídios e troca de opiniões do maior valor para o conhecimento objetivo dos verdadeiros fundamentos social-democratas.

Os senadores Fernando Henrique Cardoso e Roberto Saturnino Braga e os deputados federais Fernando Lyra e este escriba integravam o conselho consultivo do ILDES. Em relação ao Brasil, já que vivíamos os tempos autoritários, era fazer do PMDB o grande partido social-democrata. Infelizmente o projeto naufragou. A Internacional Social-Democrata, à época presidida por Willy Brandt, aproximou-se de Leonel Brizola, fazendo-o um dos seus 25 vice-presidentes. Mesmo integrando a Internacional Social-Democrata, o PDT falhou. Nos últimos anos, sem a força do passado, o ILDES aproximou-se de correntes social-democratas do PT, com amplitude restrita.

Voltando ao tempo histórico, em 1988, criou-se uma dissidência do PMDB que se transformaria no PSDB. Poderia vir a ser o grande partido social-democrata brasileiro. Infelizmente, talvez por uma má-formação das elites políticas nacionais, é um núcleo social-democrata, até agora, apenas na sua nominata. Ainda é muito profunda a contradição interna entre correntes social-democratas, democrata-cristãs e de livres-atiradores. É uma sigla partidária a mais a integrar a frágil constelação política brasileira. O personalismo e o caciquismo são vícios herdados e que prevalecem na sua constituição. Alguns se consideram proprietários da legenda, outros fazem o jogo rasteiro dos interesses paroquiais. Não há doutrina, não se busca debater os grandes problemas nacionais. A única e prevalente preocupação é com o processo eleitoral. E nisso repete a dramaticidade das inorgânicas frentes políticas que vitimou o PMDB.

A social democracia moderna, nesse tempo de irreversível globalização, tem na liberdade o seu fundamento maior. Expressado em um sólido compromisso com a economia de mercado e firme determinação na consolidação das garantias trabalhistas dos assalariados. Através de uma administração estatal comprometida com o bem-estar social da sua população. Onde a educação, a saúde, o saneamento, a segurança, a habitação são pontos inegociáveis. E o desenvolvimento é uma meta a ser buscada. E não apenas o crescimento econômico. Como ocorreu no governo FHC e continua no governo Lula.

O Brasil está maduro e à espera de ver nascer um grande partido social-democrata. E o PSDB poderia vir a ser essa alternativa, desde que rompesse com a mesmice e a ausência de idéias e de debates internos que o caracteriza. Consegue, contudo, apesar dos pesares, se diferenciar por ter vários quadros competentes e éticos e uma militância relativa. Mas todos continuam aguardando, como na obra teatral de Samuel Beckett, a chegada de Godot. E que seria a estruturação política, orgânica e doutrinária de um autêntico partido social-democrata.

Hélio Duque é ex-deputado federal.

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