Glauber, alma indômita

?Nunca enganei ninguém?, pressentindo a morte que chegava, o vulcão de inteligência Glauber Rocha, em julho de 1981, em Sintra, Portugal, orgulhava-se da vida vivida, em diálogo com a sua mulher Paula Gaitán. Morreria no mês seguinte no Rio, transportado em coma das terras lusitanas. Duas décadas e meia depois, os últimos meses de vida do cineasta em Portugal são reunidos em filmes caseiros e gravações em áudio no documentário Diário de Sintra, de onde extraímos a sua angústia refletida na curta frase.

A viúva Paula Gaitán, fotógrafa e artista plástica, é autora e diretora da obra carregada de humanismo e testemunho existencial aliados à generosidade glauberiana que sempre marcou a sua vida. Exibido na mostra competitiva de documentários da Première Brasil do Festival do Rio, tocou a alma e a vida daqueles que conheceram e conviveram com a sua arrebatadora militância em favor da dignidade humana. A busca da verdade a qualquer preço, seja no jornalismo de onde se originou, ou na criação de uma realidade filmográfica que o colocou entre os mais importantes cineastas mundiais, Glauber está no modesto, mas profundo documentário retratado por inteiro.

?Nunca enganei ninguém? é um testemunho de fé para o que foi a sua vida, onde a influência familiar de formação luterana marcou os seus primeiros anos, em Vitória da Conquista, no sudoeste baiano. Em meados da década de 50, ao mudar-se para Salvador, o seu pai torna-se proprietário do Magazine Adamastor, a mais completa e moderna loja de vestuário masculino da cidade. Na universidade, Glauber Rocha ingressa no curso de Direito e torna-se jornalista do Jornal da Bahia. Em 1961, dirige o seu primeiro filme Barravento, realizado na então distante praia de Buraquinho. Seria o início de um caminho que o levaria ao cenário internacional com Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe e outros filmes de vanguarda que integram o acervo maior da inteligência brasileira. Foi muito influenciado pelo novo cinema europeu do pós-guerra, sobremaneira o neo-realismo italiano e a nouvelle-vague francesa. Contudo, a originalidade da sua obra criativa é única: marcadamente brasileira.

A provinciana Salvador do início da década de 60 era uma cidade de 700 mil habitantes, onde o coração pulsante era a Rua Chile e a Avenida Sete de Setembro. O governador era o truculento Juracy Magalhães. A exibição do documentário fez-me relembrar de um episódio que causou grande confusão na época, abril de 1960, e que envolvia três jovens universitários: Glauber Rocha, Paulo Gil Soares e Milton Carvalho e Silva. O último, estudante de Engenharia que montou a estratégia anarquista. Em papel pardo, enrolado com o formato de cartucho de dinamite, encheu de areia no Porto da Barra, e na prensa da escola de engenharia moldou o artefato, colocando espoleta e fio de meio metro. Era cópia acabada de uma banana de dinamite.

A União dos Estudantes da Bahia tinha a sua sede no final da Rua Chile, na descida para a Praça Castro Alves. O governador, todo final de tarde, encerrava o expediente no Palácio Rio Branco e dirigia-se ao Palácio da Aclamação. No dia determinado, quando o carro de Juracy Magalhães passava em frente à UEB, Glauber, Paulo e Milton avançaram em direção ao veículo e lançaram os três artefatos com os fios acesos. Foi um pandemônio, a segurança entrou em ação e arrastou o governador para o Palace Hotel, o fio apagou, mas as bananas de dinamite não explodiam. Os três fugiram em direção à Ladeira da Montanha, nas proximidades, que levava à Cidade Baixa. A polícia entrou em cena e aplicou na multidão que se aglomerava na Praça Castro Alves os corretivos conhecidos e a pancadaria se generalizou. Os três ficaram escondidos por várias semanas, na Ilha de Itaparica. O governador passou a ser motivo de chacota, muito bem explorada pela oposição.

?Nunca enganei ninguém?, com a ressalva do engano consciente na peça tragicômica, como militante estudantil, que serviu para desmistificar a coragem proclamada do governador, a vida de Glauber Rocha foi impecável no compromisso com a verdade. O que não lhe deixou de causar grandes aborrecimentos e incompreensões. Em 1976, segundo ano do governo Geisel, escreveu histórico artigo onde dizia acreditar que a tese da sístole e da diástole preconizada por Golbery do Couto e Silva, sobre a abertura política no regime autoritário, era para valer. Foi massacrado no Brasil pelos seus antigos companheiros, o que o levaria a um segundo auto-exílio, só retornando à pátria em estado terminal para morrer.

A história iria demonstrar que sua visão não era equivocada. A demissão de Golbery, em 1981, no governo Figueiredo, ao se rebelar contra a farsa montada no inquérito do atentado do Riocentro, lhe daria parcial razão. Houve um travamento na estratégia aberturista.

?Nunca enganei ninguém? é a expressão acabada da vida de um brasileiro genial, ceifada aos 43 anos de idade, no apogeu da sua maturidade intelectual. Inquieto, rebelde e dotado de uma criatividade superior, escreveu neste mundo temporal uma página que dignifica a inteligência brasileira e que nunca morrerá. Atravessará os tempos.

Hélio Duque é doutor em ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.

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