Léo de Almeida Neves
O Brasil perdeu, sábado último, o empresário Fernando Gasparian, um dos mais valorosos combatentes da luta contra a ditadura e pelo restabelecimento das liberdades democráticas. Gasparian foi dono da Companhia América Fabril, no Rio de Janeiro, uma das principais indústrias têxteis do país, que chegou a empregar cinco mil trabalhadores. A política econômica contracionista vigorante pós 64 e a perseguição política, tirando-lhe as fontes de financiamento do Banco do Brasil, compeliram-no ao fechamento da fábrica.
Nos tenebrosos anos 70s, ele fundou a revista Argumento, dirigida por Barbosa Lima Sobrinho, e o jornal semanário Opinião, que ao longo de quatro anos sustentou o combate ao regime militar, publicando artigos entre outros de Celso Furtado, Fernando Henrique Cardoso, Dias Gomes, Alceu Amoroso Lima e Érico Veríssimo. O jornal sofreu forte censura, teve edições inteiras confiscadas, tornando insustentável manter sua circulação.
Durante os sete meses da gestão Jânio Quadros na Presidência da República, Gasparian exerceu, como interventor, a presidência da Confederação Nacional da Indústria, e foi membro do Conselho Nacional de Economia no período João Goulart. Em 1968, ele apoiou financeiramente a famosa ?passeata dos cem mil? no Rio de Janeiro, que assustou o governo e representou uma das determinantes do famigerado AI-5, em 13 de dezembro de 1968, que fechou o Congresso Nacional, eliminou o habeas corpus e endureceu o regime, sendo considerado pelos historiadores o ?golpe dentro do golpe?.
Gasparian, no início da década de 70, auto-exilou-se por algum tempo na Inglaterra. Ele criou as editoras Graal, no Rio de Janeiro, e Paz e Terra, em São Paulo, que deram prioridade à publicação de livros nas áreas de filosofia, sociologia e política, de autores famosos, como Paulo Freire, e de ?brazilianists?, como Thomas Skindore. Gasparian escreveu o prefácio de meu livro Destino do Brasil Potência Mundial, A Era Vargas Continua, e a Paz e Terra editou minha obra Vivência de Fatos Históricos.
Deputado federal constituinte pelo PMDB de São Paulo, Gasparian introduziu na Constituição Federal, de 5 de outubro de 1988, dispositivo estabelecendo teto de juros real de 12% ao ano, significando que o sistema financeiro não poderia cobrar nos empréstimos a particulares e a pessoas jurídicas taxas maiores, embora permitindo adicionar taxa de inflação e tributos. Por pressão dos banqueiros, esse preceito da Carta Magna jamais foi regulamentado e, portanto, nunca entrou em vigor, culminando por ser dela excluído. Outra iniciativa de Fernando Gasparian visava impor, via legislação federal, quarentena aos diretores do Banco Central, que por cinco anos ficariam proibidos de ocupar cargos em bancos comerciais e de investimentos, corretoras e em consultorias prestadoras de serviços às instituições bancárias.
Ele era amigo pessoal do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que integrou o Conselho Editorial da Paz e Terra, mas se opôs tenazmente à venda da Cia. Vale do Rio Doce e de outras empresas estatais, e participou de movimentos populares de repúdio às privatizações.
O Brasil ficou intelectualmente mais pobre com a morte de Fernando Gasparian, empreendedor patriota e nacionalista, que pautou sua vida na defesa da democracia, do desenvolvimento econômico e da justiça social, deixando exemplos dignificantes para as gerações futuras.
Léo de Almeida Neves é ex-deputado federal e ex-diretor do Banco do Brasil.