Por maior que seja a boa vontade dos observadores da política em interpretar como um fato novo a eleição dos peemedebistas Michel Temer (SP) e José Sarney (AP) para as presidências da Câmara dos Deputados e do Senado da República, não há como refutar que o regresso do PMDB, depois de 16 anos, ao controle de ambos os cargos mais elevados do Poder Legislativo é uma prova irrespondível da competência fisiológica do partido para a coabitação com o poder.

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Entretanto, também não foi possível esconder o autêntico clima de velório retratado no rosto dos parlamentares que acompanhavam os eleitos no cortejo solene sobre um tapete vermelho estendido na rampa do Congresso, conforme se percebe na expressiva foto de Sérgio Lima, publicada anteontem na primeira página da Folha de S. Paulo. Poucas vezes se poderá afirmar que uma imagem se tornou com tamanha exatidão o signo de uma realidade insofismável, a ponto de as palavras serem dispensadas no afã de explanar os verdadeiros sentimentos.

O clima de velório, dizíamos, sequer foi diminuído pelas fotos que ilustraram os textos das páginas internas, nas quais aparecem figuras exibindo sorrisos contrafeitos, como se estivessem muito mais interessados em disfarçar o constrangimento do que propriamente em comemorar um feito afirmativo para o Congresso. Mais estranho, ainda, é o reconhecimento de que o principal vitorioso acabou sendo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para quem tudo estaria no melhor dos mundos se o petista Tião Viana derrotasse Sarney (a diferença foi de 17 votos), pois afinal eles envergam a mesma camiseta da base de apoio do governo.

Na Câmara, apesar das candidaturas avulsas dos deputados Ciro Nogueira (PP-PI) e Aldo Rebelo (PCdoB-SP), que receberam, respectivamente, 129 e 76 votos, a vitória de Temer foi assegurada por folgados 304 sufrágios num quorum de 509 do total de 513 deputados. O paranaense Osmar Serraglio (PMDB) retirou a candidatura na véspera da eleição, transferindo os votos que esperava obter para o colega paulista e a força alardeada por Ciro e Rebelo acabou minguando, ao invés de crescer como uma ameaça à vitória do presidente da executiva nacional do PMDB.

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Quando se afirma que o ganho maior, mais uma vez, escorregou candidamente para o regaço do presidente Lula, à luz do exíguo esforço feito para conferir maior consistência à tentativa do senador Tião Viana de ganhar a presidência da Casa, a razão primacial se configura na presença de dois fortes aliados à frente das mesas diretoras da Câmara e do Senado. Além disso, Sarney decerto vai desempenhar o importantíssimo papel de avalista da permanência do PMDB na aliança de 2010 e, apoiador irrestrito da candidatura virtual da ministra Dilma Rousseff. Era tudo o que Lula precisava, sobretudo diante do pesado encargo de remover os possíveis embargos à indicação da ministra e, por cima, contar com a influência do senador na articulação visando impedir o desembarque do PMDB (ou parte dele), na candidatura de José Serra.

Ao PMDB não escapa a pretensão de se apresentar nos bastidores das eleições gerais de 2010 como um interlocutor privilegiado, enfim, a noiva cobiçada por todos os pretendentes. Dessa forma, na formulação estratégica que alguns sonhadores desenham desde já, não é proibido conjeturar que, a depender da evolução natural do desempenho da pré-candidata do presidente Lula, a balança poderá eventualmente pender para um nome do partido. O busílis da questão seria encontrar um candidato em condições, não apenas de granjear o apoio da base partidária, cuja coesão aparente é mantida pela recompensa de vantagens imediatistas, mas de empolgar parcelas mensuráveis do eleitorado, que nesse momento, ainda demonstram pouquíssimo interesse pelo candidato situacionista. Por outro lado, teme-se que o PMDB dos estados mais ricos, a começar por São Paulo, prefira apresentar armas e bater continência ao governador José Serra, nota vibrada pelo versátil corneteiro Orestes Quércia.

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