Ganhos de safra

As contas da agropecuária brasileira, que vão fechar em alta no final desse exercício, não terão o mesmo desempenho exultante em 2009, em face da crise financeira internacional que vai diminuir os níveis de consumo nos países importadores. Segundo dados liberados pelo Ministério da Agricultura, a receita conjunta de 2008 deverá alcançar R$ 164,6 bilhões, ou 15,9% maior que a receita do ano anterior. A marca recorde havia sido registrada em 2003 (R$ 149,2 bilhões), mas as boas notícias para o campo param aí: em 2009 a estimativa da receita conjunta está deflacionada em 6,9%, caindo para R$ 153,3 bilhões.

A projeção de queda foi baseada pela área de planejamento estratégico do Ministério da Agricultura, considerando a quebra de produção da safra 2008/09 anunciada há cerca de dez dias pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e, além disso, a diminuição dos preços das commodities agrícolas em geral.

As dificuldades serão sentidas mais de perto pelo setor de exportações à vista da escassez de crédito resultante da crise, contingência que poderá levar o agronegócio brasileiro a lastimar a primeira queda em dez anos. O secretário de Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Célio Porto, já transmitiu essa preocupação aos produtores ao enfatizar que o governo trabalha com um percentual situado entre 5% e 10% de encolhimento nas vendas externas referentes a 2009, em comparação com os números atuais.

No período de doze meses encerrado em novembro último, o agronegócio brasileiro embarcou para o mercado exterior um volume de produtos avaliado em US$ 71,67 bilhões, um valor que superou em 23,7% o registrado um ano antes. Até o final do ano, a cifra deve sofrer pequena variação. Contudo, em relação a 2009, o governo estima que as exportações agropecuárias regridam para algo entre US$ 64,5 bilhões e US$ 68 bilhões.

Como revelou o secretário Célio Porto, a área mais atingida pela retração será a de carnes, por ser a mais sensível aos problemas gerados pela falta de crédito. O governo calcula que as vendas para o mercado externo sofram no próximo exercício uma queda de até 20%, ao passo que na exportação de grãos a estimativa da diferença para menos seja de 5%. O declínio mais acentuado será observado nas carnes suína e bovina, havendo razoável compensação no consumo de carne de aves, que costuma ter boa aceitação no mercado globalizado, em função dos custos mais acessíveis em tempos de aperto dos orçamentos domésticos.

O cenário desfavorável para o agronegócio em 2009 está cinzelado pela desvalorização do real diante do dólar norte-americano, a partir do agravamento da crise financeira mundial em outubro passado. Por enquanto, o dólar mais caro ajudou o setor agrícola a suavizar a queda observada nos preços das commodities, aumentando a receita das exportações em moeda local. O dilema é que o custo dos insumos (fertilizantes e herbicidas) não caiu na medida esperada e passou a representar um sério agravante na expectativa de plantio da safra atual.

Assumindo o relevante papel de sustentáculo da exportação de carne para o mercado externo, a União Brasileira da Avicultura (UBA), por intermédio do presidente Ariel Antonio Mendes, fez chegar ao governo federal a solicitação de abertura duma linha adicional de crédito no valor de R$ 3 bilhões. Mendes salientou que o maior entrave para as exportações em 2009 reside na dificuldade de obter empréstimos para custear a produção avícola. A idéia é direcionar os recursos liberados pelo governo para o financiamento das vendas externas.

A própria UBA supõe que o setor avícola arcará com uma queda nas vendas externas de até 22% nos três meses iniciais do próximo ano, em relação aos números do primeiro trimestre de 2008. A partir de abril, entretanto, com a volta do crédito, o setor passa a operar a plena carga. Ou seja, sai a picanha e entra o peito de frango.

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