Murilo Ghisoni Bortoluzzi

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O reajuste de 9,4% no preço do gás natural no mês de setembro acendeu o sinal de alerta para a indústria catarinense que depende do fornecimento do produto para manter sua produção em funcionamento. A perspectiva de novos reajustes nos próximos meses aponta para um quadro ainda mais preocupante para o crescimento da indústria e a conseqüente geração de empregos.

Neste cenário, um dos principais prejudicados é o segmento das cerâmicas localizadas no Sul do País – as indústrias cerâmicas de Santa Catarina utilizam cerca de 60% do volume de gás consumido no estado. Num mercado onde o gás natural representa em média 25% dos custos de produção, a alternativa encontrada para a ameaça de desabastecimento e a alta no preço da energia que movimenta as máquinas é o retorno ao uso do carvão mineral e da lenha, em substituição ao gás.

Uma medida radical de sobrevivência, que traz embutido o indesejável prejuízo ao meio ambiente que essas antigas fontes de energia produzem em comparação ao gás natural. Diante da falta de perspectivas concretas para o desenvolvimento de novas fontes de energia ?limpa?, como o biodiesel, grandes indústrias cerâmicas voltaram a utilizar o carvão na sua produção – na época das ameaças geradas pela crise política na Bolívia, no primeiro semestre de 2005.

As indústrias estão retornando à utilização do carvão nos atomizadores, fornalhas e secadores – mantendo o gás natural somente nos fornos. Algumas empresas vão além, na busca de projetos de energéticos substitutos, que venham ativar linhas inteiras de produção, motivadas pelas incertezas sobre o futuro do gás natural e a necessidade de se manterem competitivas no mercado nacional e internacional.

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Fatos que se agravam diante da insensibilidade demonstrada pela Petrobras no início do mês de setembro, durante a reunião realizada na sede da companhia petrolífera, do qual participaram a Asulcer (Associação Sul-Brasileira de Revestimentos Cerâmicos) juntamente com o governador de Santa Catarina, Luiz Henrique da Silveira, e o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli de Azevedo, que manifestou preocupação maior com as usinas termoelétricas, em detrimento da indústria instalada e outros setores importantes para a economia nacional.

A previsão sombria da Petrobras é que um crescimento da demanda pelo gás natural superior a 11% ao ano deva gerar uma crise de abastecimento do produto no Brasil. Uma das possíveis soluções para este problema, o ?anel sul-americano de gasodutos? -obra orçada em US$ 2,5 bilhões, que atenderia os mercados do Brasil, Chile, Bolívia e Argentina, a partir de jazidas do Peru – permanece como um sonho ainda distante de se realizar.

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No centro da questão, temos atualmente uma indústria nacional temerosa, à mercê de políticas governamentais que não oferecem perspectivas concretas para um crescimento seguro. As 14 empresas que integram a Asulcer estão focadas na fabricação de produtos de alto valor agregado e se estabelecem como o principal pólo exportador de cerâmica das Américas – US$ 221 milhões em 2004, que representaram 65% do total exportado pelo Brasil.

O que cobramos da Petrobras é a adoção de uma política de abastecimento de médio e longo prazo, para dar tranqüilidade ao investidor brasileiro, com preços competitivos dentro do cenário internacional, que estimulem as indústrias exportadoras aqui instaladas.

Os estados do Sul do Brasil pagam atualmente cerca de US$ 0,30/m3 pelo Gasbol, oriundo da Bolívia. Enquanto isso, nossos principais concorrentes no mercado asiático trabalham com o gás natural a cerca de US$ 0,10/m3, ou seja, o custo do gás no Brasil é 300% mais caro.

Prejudicadas nas exportações, as indústrias cerâmicas enfrentam um cenário econômico nacional de deflação, que não oferece condições para que o aumento do gás seja repassado para o produto final, ao transferir para os consumidores aumentos de preços de maneira desproporcional à inflação. No cenário internacional, a desvalorização do dólar tira toda a capacidade de reação da indústria brasileira.

Os prejuízos constantes se refletem na realidade atual do segmento cerâmico, onde muitas empresas operam com dificuldades e a maioria dos parques fabris sofre um processo de sucateamento, pela falta crônica de investimentos em tecnologia e maquinário. Voltar a utilizar o carvão mineral para alimentar as máquinas é mais um reflexo indesejável desse retrocesso.

Murilo Ghisoni Bortoluzzi é presidente da Asulcer – Associação Sul-Brasileira de Cerâmica para Revestimento e diretor vice-presidente da Itagres.