Frutos do pragmatismo

A inflação é mesmo um fantasma que atemoriza mortalmente não apenas as pessoas comuns, preocupadas em como fazer para manter equilibrado o orçamentário doméstico, mas as autoridades monetárias, dirigentes políticos e analistas econômicos de diferentes tendências e escolas de pensamento. No Brasil não poderia ser de outra maneira e, tampouco seria sensato admitir que os achaques da economia interna não tivessem a devida repercussão no mundo globalizado.

Como oportunidade de investimentos maciços provenientes da poupança externa, graças à excelente classificação de risco obtida recentemente, a economia brasileira passou a oferecer, muito mais que em épocas anteriores, um manancial a ser escrutinado todos os dias pelos especialistas, além das análises cíclicas abrigadas por prestigiosas publicações do Primeiro Mundo.

A elevação em 0,75 ponto percentual da taxa básica de juros, que dessa forma chegou a 13% ao ano, determinada há poucos dias pelo Banco Central, foi enquadrada pelo economista Rafael de la Fuente, do banco francês BNP Paribas, como “uma resposta à preocupação com o crescimento da inflação que surpreendeu os mercados”. O tema mais uma vez foi parar nas páginas da última edição da revista Forbes, uma espécie de cânone da economia mundial, para quem o Banco Central (BC) fez uma tentativa de jogar água fria na aquecida economia do País.

Para os analistas, a posição do BC deve ser interpretada como a decisão de operar uma política econômica capaz de transmitir o código de que a inflação precisa e será reduzida. O sinal vermelho está piscando com intensidade, à vista do convencimento geral de que a taxa inflacionária de 2008 irá atingir 6,53%, superando em muito a meta de 4,5% estipulada pelo próprio governo, além de colocar-se um pouco acima do teto de 6,5%. Não foi por outro motivo que a taxa básica de juros se elevou em 0,75%, na verdade, um argumento recorrente nas alocuções do presidente da instituição, Henrique Meirelles, que tem prometido apertar a corda em torno do pescoço da inflação e fazê-la retornar para a confortável margem de 4,5% até o final de 2009.

No início da segunda quinzena desse mês, o mais importante jornal publicado na Espanha, o El País, afirmou em ampla reportagem não restar nenhuma dúvida que o Brasil “é a menina bonita da América Latina”. O parâmetro utilizado, entrementes, foi o índice de 5,4% na expansão do Produto Interno Bruto (PIB), que é a soma de todas as riquezas produzidas no País no período de um ano. O crédito foi atribuído à gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que de acordo com uma fonte do diário editado em Madri, “soube conjugar a solução para os problemas sociais com uma estabilidade macroeconômica que se tornou um exemplo seguido por muitos outros países da região”.

Percebe-se com clareza na leitura dessas matérias, a relativa segurança dos analistas quanto aos rumos traçados previamente pelos responsáveis pela economia brasileira. O foco se abre para enquadrar também as economias com visibilidade mensurável no contexto da América Latina, descrita como uma região que vem enfrentando um verdadeiro “tsunami econômico” em ótimas condições, mercê do crescimento verificado nos últimos cinco anos. Enaltecendo os exemplos do Brasil, Chile e México, apesar dos altos e baixos, o jornal destacou a firmeza da estabilidade econômica derivada do duro processo de aprendizado com os erros do passado: “Antes a dependência do capital estrangeiro era crucial para o sustento dos países, qualquer susto afastava os investidores. Hoje, com uma crise cujo epicentro é o mundo desenvolvido a situação é outra”.

Nem a guinada política à esquerda em oito países latino-americanos surpreende mais os interessados em observar os frutos da política econômica pragmática, para não dizer conservadora, adotada pela maioria.

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