?Mas o meu livro é um candidato para o futuro?, admoestou o poeta Walt Whitman (1819-1892), sobre Folhas de relva, cuja primeira das nove edições saiu em 1855 num opúsculo custeado pelo autor, com doze poemas. A declaração profética consta do ensaio ?Um olhar retrospectivo sobre as estradas viajadas?, no qual fez alentada prestação de contas de sua trajetória literária de livro único, ao qual, no entanto, como numa autêntica obra em progresso foram acrescentados às edições sucessivas, até a última em 1891, que Whitman chamou de ?edição do leito de morte?, os novos poemas escritos no período 1850-1880.
Folhas de relva, na verdade, é um texto experimental sobre a república americana que, então, fincava raízes nos princípios da liberdade e democracia, valores espirituais que Walt Whitman exaltou em seus poemas, obviamente, projetando-os no homem e na mulher daqueles anos decisivos de afirmação dos Estados Unidos numa moldura de grandes realizações.
Admitia o poeta que se sua filosofia estivesse correta, as respostas sobre se o livro haveria ou não de triunfar e conquistar sua área de objetivo, liberdade e construção, somente seriam conhecidas depois de cem anos.
Certa vez, o poeta Paul Valéry afirmou que fora Baudelaire o responsável pela apresentação de Edgar Allan Poe ao futuro, inclusive com a dedicação de maior tempo de sua atividade intelectual à tradução para o francês dos poemas e contos do renegado autor de O corvo. Nesse caso, Whitman, que era admirador de Poe, seguiu a mesma escola, posto que por si mesmo atinou com a intuição de o livro não servir para um momento ainda próximo da ruptura de cânones literários vitorianos.
Para Whitman, dedicado inteiramente à poesia depois de uma carreira de altos e baixos no jornalismo e em outras ocupações não intelectuais, a ambição do engenho criativo era ?expressar de forma poético-literária, e sem outros compromissos, minha própria personalidade física, emocional, moral, intelectual e estética, em meio a, e narrando, o momentoso espírito e os fatos de seus dias imediatos, e da América atual – e explorar a Personalidade, identificada com local e data, em um sentido bem mais cândido e abrangente do que em qualquer outro livro ou poema até então?.
Dessa forma, o livro abarca a América dos anos 1850-1880, esclarecendo o poeta que a literatura de primeira classe não brilha por qualquer luminosidade própria: ?Tal literatura nasce de circunstâncias e é evolucionária?. Não foi outro o processo que levou Folhas de relva a tirar nove edições. Whitman lembra que seus poemas deveriam ser diferentes de todos os demais e, somente poderiam ser escritos na segunda metade do século XIX em nenhuma outra terra que não fosse a América democrática e ?nem numa circunstância distinta do triunfo absoluto dos exércitos da União Nacional?.
A experiência da Guerra da Secessão, na qual Whitman atuou como enfermeiro em Washington, permitiu-lhe conhecer acampamentos, testemunhar grandes batalhas, e compartilhar o desalento, o desespero e o risco iminente da morte, nos anos de gestação do que então seria a União homogênea. Sustenta o poeta: ?Sem aqueles três ou quatro anos, e as experiências que eles me deram, Folhas de relva não teriam existido?.
Enfim, se o livro trouxe alguma fama não trouxe dinheiro, à vista da virulenta recepção por parte da crítica literária de então. O Christian Examiner escrevia: ?O livro (…) é uma afronta para a moral reconhecida de um povo respeitável?. Já para o New York Criterion, o melhor era ?indicar esse monturo de sujeira às leis?, ao passo que do outro lado do oceano o London Critic extravasava: ?Walt Whitman está tão alheio à arte, como um porco o está em relação à matemática?. Em grande parte, a acrimônia se devia à liberalidade com que Whitman descrevia seu homossexualismo.
O único a compreender a grandeza de Whitman foi o filósofo Ralph Waldo Emerson. Seu juízo se resume numa frase: ?Vejo nessa obra o mais extraordinário exemplo de inspiração e sabedoria que a América do Norte até agora produziu?.
Mesmo assim, quando velho, pobre e doente, o poeta era obrigado a sair de casa carregando uma cesta cheia de livros para vender nas ruas. Hoje o livro é reconhecido como um monumento da poesia universal e Whitman um colosso de todos os tempos. Um colosso que apesar de possível arrogância teve humildade para admitir que ?as mais fortes e mais doces canções ainda estão por ser cantadas?.
O artigo da semana foi inspirado nas edições simultâneas de Folhas de relva lançadas pelas editoras Martin Claret e Iluminuras. Imperdíveis: a primeira com o texto integral e, a segunda, bilíngüe, com os doze poemas inaugurais.
Ivan Schmidt é jornalista.