Fogueira das vaidades

Mesmo com o capricho para não perder a pose de que a situação permanece sob controle, nos bastidores a pendenga vai ganhando intensidade. Trata-se da disputa interna entre PT e PMDB pela presidência do Senado e, por extensão do Congresso Nacional, um dos postos relevantes na composição hierárquica dos poderes constituídos da República. O PT saiu na frente ao lançar o nome do senador Tião Viana (AC) para a presidência da Casa, procurando se antecipar ao próprio PMDB, que segundo se sabe preenche os requisitos que lhe asseguram o direito de se bater pelo cumprimento de uma tradição existente no Legislativo, segundo a qual o partido com o maior número de representantes eleitos indica o presidente.

Nesse caso, subordinar-se à tradição não faz parte da estratégia imediata do principal partido da aliança governista, o PT, que deseja colocar um de seus quadros na presidência do Senado, visando estabelecer o que chamam de equilíbrio de forças com a Casa vizinha, a Câmara dos Deputados, para cuja presidência deverá ser eleito o deputado Michel Temer (PMDB-SP). O raciocínio dos líderes petistas é que não se pode incorrer na inadvertida decisão de entregar a direção de ambas as instâncias do Congresso ao mesmo partido, tendo em vista a possibilidade da ocorrência de problemas futuros no encaminhamento da própria sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Contudo, enquanto o PT já escolheu o senador Tião Viana como candidato à presidência do Senado, o PMDB, mesmo convencido de que deve lançar candidato próprio, ainda está discutindo internamente para encontrar o nome ideal. Como sempre, o presidente da República se dispõe a envergar o uniforme de bombeiro a fim de impedir que a fogueira das vaidades, sempre acesa entre os partidos da base, venha a contribuir para levar ao ponto de ebulição as desavenças costumeiras numa associação heterogênea, como a que se formou em torno da pessoa do presidente Lula.

O máximo que se poderia esperar da intervenção de Lula, que deverá embarcar ainda essa semana para uma viagem de dez dias aos Estados Unidos e Itália, segundo assessores palacianos, caso não se obtenha êxito na tentativa de fazer o PMDB desistir da pretensão de exercer também a presidência do Senado, seria o esforço do presidente pela indicação do senador José Sarney (PMDB-AP), não por acaso seu maior aliado no Congresso. A boataria sempre adubada em ocasiões similares, dá conta que a cúpula governista dificilmente poderá se ver livre da tarefa de providenciar uma frondosa penca de cargos de ampla visibilidade no patamar mais alto da administração federal, visando compensar o PMDB pela perda da presidência do Congresso.

Caciques da legenda peemedebista negam com veemência a intenção de mercadejar cargos em troca da presidência do Senado, embora uma rápida avaliação do comportamento recorrente do partido exponha toda a crueza duma prática fisiológica realizada sem o menor apreço aos padrões de ética e transparência na política. Aliás, valores que até mesmo os dirigentes nacionais do Partido dos Trabalhadores jogaram no lixo, quando passaram a compactuar com os apelos corruptores acenados pelo publicitário Marcos Valério de Souza, o articulador do mensalão.

O PMDB está consciente da força de suas bancadas na Câmara e no Senado, afinal, uma expressiva cornucópia de votos que o governo jamais poderá dispensar nos confrontos diretos com a oposição. Se assim não fosse, não teria cinco ministros na Esplanada (Geddel Vieira Lima, Edison Lobão, Reinhold Stephanes, Hélio Costa e José Gomes Temporão), além dos inúmeros cargos de direção nas estatais mais importantes da administração federal. O cacife atual ancorado na larga margem de prefeituras conquistadas País a fora, credencia o PMDB como uma das vozes mais influentes no debate a ser travado pela aliança governista em torno da sucessão. Perder esse apoio, hipótese que não passa pela cabeça de Lula, significa o estouro da bolha onde se abriga o sonho da tranqüila eleição do sucessor. Ou da sucessora.

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