O PMDB “velho de guerra”, como persistem em classificá-lo as aves raras que desfraldam a carcomida versão de que em passado longínquo o partido se tornou credor do respeito popular e, envolto no manto de fidelidade aos ideais que o projetaram na política brasileira como principal coluna da restauração democrática, adquiriu o direito consuetudinário de continuar usufruindo as prerrogativas de antanho, acabou de ser atirado num autêntico lago de fogo e enxofre.

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Dir-se-ia que finalmente o partido-ônibus foi rotulado de forma inapelável e definitiva por um de seus integrantes históricos, senador pernambucano Jarbas Vasconcelos, que no mínimo passa a ser alvo preferencial da vendeta dos capitães-do-mato que exercem com mão de ferro o controle da estrutura intestina, provavelmente pagando o desassombro com a pena máxima da expulsão da legenda. Em entrevista publicada na edição desta semana da revista Veja, o senador afirmou que o PMDB atual apresenta-se como “um partido sem bandeiras, sem propostas, sem norte” e, para pasmo da cidadania não acostumada com tal franqueza, ainda mais em se tratando de políticos, transformou-se numa espécie de depósito franqueado a um contingente de novos filiados, que em “boa parte quer mesmo é corrupção”.

Político com larga experiência no meio, tendo disputado inúmeras eleições em seu estado, o qual governou por duas vezes, o senador Jarbas Vasconcelos pode ser enquadrado pelos adversários de dentro e fora do partido como dotado duma personalidade aguerrida e, dependendo dos fatos, duramente agressiva, mas jamais poderão chamá-lo de irresponsável ou mal-intencionado. Portanto, o aglomerado de políticos configurado pelo senador pernambucano como “uma confederação de líderes regionais, cada um com seu interesse, sendo que mais de 90% deles praticam o clientelismo, de olho principalmente nos cargos para fazer negócios, ganhar comissões”, está urgentemente convocado a prestar os esclarecimentos devidos à sociedade.

As denúncias são de natureza grave, mesmo que o senador tenha preferido evitar dar nomes aos bois e, até expor o flanco ao recurso jurídico de que ao acusador cabe o ônus da prova. Assim sendo, na condição de maior partido representado na Câmara dos Deputados e Senado da República, com mais de mil prefeitos e outros milhares de vereadores eleitos em outubro passado e sete governadores estaduais, fiel da balança da base governista no Congresso, o PMDB ficará em situação ainda mais escabrosa se apresentar tergiversações em lugar de esclarecimentos francos e espontâneos, cumprindo a finalidade de desfazer a degradante imagem resultante das declarações do senador Jarbas Vasconcelos.

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O prestígio político de algumas figuras que tomaram de assalto a nau que outrora teve na proa, entre tantas outras referências morais, personalidades da grandeza de Pedroso Horta, Adauto Lúcio Cardoso, Teotônio Vilella e Ulysses Guimarães, forjou-se segundo o denunciante ao arrepio da conspícua especialização na prática da “manipulação de licitações, contratações dirigidas, corrupção em geral”. A deterioração do edifício peemedebista teve início em 1994, quando o partido “resolveu adotar a estratégia pragmática de usufruir dos governos sem vencer a eleição”, comentou Vasconcelos, argumentando que “daqui a dois anos o PMDB será ocupante do Palácio do Planalto, com José Serra ou Dilma Rousseff. “Não terá aquele gabinete pomposo no 3.º andar, mas terá vários gabinetes ao lado.”

A analogia com o quadro atual é perfeita, porquanto o PMDB participa do governo Lula ocupando seis ministérios, que em conjunto manipulam uma dotação orçamentária elevadíssima, além das inúmeras diretorias de empresas estatais de primeira linha. Enfim, o clima de mafuá em processo de liquidação foi retratado por Vasconcelos, ao se referir à recente eleição de Sarney para a presidência do Senado como um processo tortuoso e constrangedor: “Sarney vai transformar o Senado em um grande Maranhão”. E a sociedade vai aceitar a afronta sem exigir explicações?

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